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Sobrado |
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29-Abr-2006 |
No Rio de Janeiro, inúmeros imóveis foram tombados, com suas fachadas imponentes tornando-se intocáveis, no português mais recente, "imexíveis". Poucos sabem, o verdadeiro motivo dessa preservação histórica é baseado nos sobrados. Já viram algo mais irresistível que um sobrado? Romântico, nostálgico, os morcegos adoram. Ah, aquela escada íngreme, perfeita para se tropeçar...
Pois, finalmente, chegou minha vez de realizar esse sonho: mudei-me de uma estúpida casa com 4 quartos, 3 banheiros, salão de festas, piscina, à beira do rio, gramado, 1200 m2 de terreno, claro, para um sobrado de 30 m2. Que maravilha! Não há fachada imponente, mero detalhe. Sou violonista, mas essa falta de espaço faz-me pensar em trocar de instrumento, sei lá, gaita, flauta, tamborim, no máximo um pandeiro!
O dia da mudança é espetacular, superável apenas quando a gente resolve morar no topo de um farol, numa ilha deserta do pólo sul. A geladeira não sobe, os móveis não cabem, colchão só de solteiro, é necessário cortar as unhas! Excelente oportunidade para se reestruturar a vida, afinal temos coisas demais. Pra que diabos precisamos de armários? Prateleiras e "araras" resolvem isso perfeitamente, tudo arejado. Gelado faz mal. Máquina de lavar? Nada, o tanque é um ótimo aparelho de musculação. Um fogãozinho de duas bocas é o ideal. Sofás prejudicam a coluna, bom mesmo é cadeira de pau duro.
No meu caso específico, a escada foi construída com degraus exageradamente altos, que não permitem minha subida da forma convencional, minha hérnia dói, a coluna range, os joelhos dobram quando não quero e não sou alpinista. Resolvi esse pequeno percalço ao assistir um filme medieval: instalei uma catapulta na calçada, que me arremessa por cima da casa, certinho, através da janela, às vezes.
Ao final dessa maratona, restou mais uma missão impossível: como fazer para me desvencilhar de tudo que havia sobrado?