Paraninfo Paranóico

Publicado na edição 019 do jornal A Voz da Cidade

13-Mai-2006

Sou formado pela famosa Faculdade de Ciências Ocultas e Letras Apagadas. A cerimônia de cola ação degrau se deu no salão pobre da copa cabana Walace, sendo este um negão maníaco por comer criancinhas, na época da dita dura. Todos fizeram discursos silenciosos, exceto os que disseram que seriam breves, mínimas ou semínimas. Foi um evento inesquecível! O pipoqueiro, o palhaço, as marionetes, adoráveis guris uivavam pelos corredores, o resto não me lembro. 

A escola usava métodos pouco convencionais. Os professores entravam em classe com tacapes, estilingues e maçaricos, como ferramentas de apoio com Vicente. O paraninfo foi escolhido no último dia de aula: ele chegou vestido com granadas e foi eleito por unanimidade. 

A oradora da formatura, Etelvina (sugestão do paraninfo), usava bengalas, era anã e tinha 26 graus de miopia, fora o astigmatismo. Lia fluentemente, desde que não escondessem seus óculos, que procuraram, por tudo que foi canto, em vão. De forma que ficamos apenas com o discurso breve do paraninfo. Eram 119 turmas naquele dia e todas o escolheram, por livre e espontânea depressão. Na festa, por via das dúvidas, ele apareceu com uma bomba-relógio pendurada na orelha, acoplada a um detonador de emergência que ameaçava freneticamente acionar. Minha turma, pela ordem, seria a última da lista. Ele preparou um discurso personalizado para cada uma, porém todos diziam, mais ou menos, a mesma coisa, ou seja, absolutamente nada. Não era permitido que se saísse do auditório, nem que se falasse, fosse ao banheiro e sentir sede nem pensar! O microfone único, mal manuseado, produzia estrondos horrorosos e muita microfonia nas caixas de som. Depois da 37a oratória, começaram a acontecer os suicídios, ninguém agüentava mais. Arranjaram uns óculos, roubaram não se sabe da vó de quem, que tinham um grau parecido com o da Etelvina, só que ela os comeu, junto com a peruca que estava agarrada à armação, e se matou em seguida, para que não houvesse dúvida. A velhinha careca e irada jogou a dentadura no paraninfo e teve início o maior Banzé! Na confusão, eu pude fugir pelo basculante do banheiro dos marcianos, antes que a bomba explodisse, mas não posso provar nada disso que eu escrevi nesta coluna, porque usaram justamente o meu diploma para embrulhar os dentes postiços da vovó... 

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