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Crônica Geriátrica |
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25-Mar-2006 |
Bom dia! Meu nome é Prista, João Prista. Tenho 88, ou 89, ou 113 anos de idade, pelo que tudo dói. Um colunista com sérios problemas de coluna. Há muito que não escrevo, estou tentando me desvencilhar dessas teias de aranha, que me penduram no ventilador de teto. Tá difícil.
Minha rotina é meio estúpida e muito dependente. Para trocar minha fralda, a Ambrosina retira a suja, aplica um jato d´água fortíssimo (o famoso "espalha merda") e liga as hélices, na velocidade máxima, para eu secar rodando. A maldita morre de rir! Na hora das refeições, quando ela está de bom humor, me empresta a dentadura da falecida Mamãe Prista. Quando está de mau humor, usa um tacape, para me convencer que não tenho fome. Minha filha deveria despedi-la, não sei por que faz isso comigo.
Neste exato momento, acho que tem uma lagartixa, alojada na minha orelha esquerda, comendo uma mariposa, ou um tamanduá, não sei bem. Sinto cócegas, impotência, dor de ouvido e vontade de matar a Ambrosina.
A artrite e a artrose não me permitem mexer com muito mais que as mandíbulas e as pálpebras. Os dedos estão emperrados, nem com ajuda do fisioterapeuta, de um guindaste, de um trator ou de choque elétrico. Para digitar este texto, estou usando o nariz, meu órgão disponível mais avantajado, multifuncional. Minha esclerose faz-me repetir histórias e histerias várias vezes. Com o tempo, você vai acabar acostumando. Agora mesmo, já não lembro por que diabos estou escrevendo tanta bobagem.
Ah, sim, para me apresentar. Foi um prazer. No bom sentido. Quem dera, quem dera... Boa noite! ´Té já, ´té já...