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Coelhos Nas Cartelas |
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Out/2007 |
No auge da insanidade, Orácio freqüentava aqueles “bingos” que funcionavam na Conde de Bonfim ou em Vila Isabel. Noites e noites de delírio! Devaneios. Não sobrava grana nem para o táxi, acabava voltando a pé para o Andaraí.
Hoje eu estou com sorte. Quatro cartelas. Não deu, perdi, mas foi só a rodada inicial. Mais quatro. Ainda não. Mais quatro, agora vai, é preciso paciência. Não ganhei, mas eu não vou sair perdendo, de jeito nenhum. Mais cartelas... E cerveja, porque ninguém é de ferro.
Terminou o horário do bingo, mas eu vou recuperar nas máquinas de moedas. Não só recuperar, vou sair daqui montado na grana! Hoje eu estou com sorte, tenho certeza.
Muitas vezes apostei meu salário, meu juízo, meu amor próprio, meu limite. Perdi tudo, meu casamento, minha casa, meu carro, meus filhos, meus amigos. Por que diabos não proibiram os jogos antes que eu me viciasse? Não há antibióticos para esse vírus. Não posso me curar com um plano médico, não vejo nada senão recuperar tudo que perdi. Sei que é um erro, que é um vício, um defeito, que devo parar, mas não posso. Não antes de ganhar muito!
Não vou mais jogar, juro que não vou! É burrice, eu sei. Trabalho? Ninguém mais me dá emprego. Já não tenho dinheiro, mas tudo vai mudar. O azar não dura para sempre! Vou pagar o que estou devendo, vou juntar algum, quem sabe comprar outro lugar para morar? É preciso recomeçar, de verdade.
Eu só vou aproveitar que hoje estou com sorte, um capital inicial não faz mal a ninguém... Você me empresta?