A Muda e o Bonde

Publicado na edição de Ago/2007 do jornal Trânsito Livre - Tijuca

Ago/2007

Prista, João Prista. Bonde, andei de bonde, mas isso já foi há muito tempo! Uma vez o condutor pisou no meu pé. Eu chutei o saco dele, que caiu do bonde, assim acidentalmente. O motorneiro interrompeu a viagem, pra tentar chutar o meu saco, assim acidentalmente. Conseguiu. Mas isso já foi há muito tempo! Eu ficava o dia todo no ponto do bonde, esperando as moças subirem. Havia moças naquela época. Com um pouco de sorte, dava pra ver as panturrilhas. Naquele tempo eram panturrilhas, hoje são apenas batatas das pernas. Perdeu o romantismo! As que desciam, sem tanto glamour, mostravam as canelas, mas isso já foi há muito tempo.

A gente moia vidro de lâmpadas nos trilhos dos bondes, pra fazer cerol. Know-How de quem já soltou pipa. Uma vez um gatinho, ainda filhote, atrapalhou os nossos preparativos, porque a gente não queria cerol vermelho. Ninguém ficou muito preocupado, porque gato tem sete vidas e estaria mesmo em algum outro lugar usufruindo da próxima. Mas isso já foi há muito tempo...

Certo dia arranjei uma namorada no bonde. Ficamos distraídos lá num cantinho no fundo do vagão, já de noite, e fomos parar na Muda, que era uma espécie de estacionamento de bondes. Foi tão emocionante! Eu alisava o cotovelo da moça, pensando que era um seio. Havia moças naquela época, mas isso já foi há muito tempo... 

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