Sem Compromisso

Publicado na edição 045 do jornal Estado do Rio Noticias

01-Jul-2006

Tudo começou com aquela maldita escova de dentes, cheia de tártaros, bem no armário do meu banheiro. Fiquei incomodado. Eu disse que não queria compromisso, mas a namorada veio a cada dia, trouxe o chinelo, para não pisar no chão frio, a camisola, o desodorante, a cafeteira e o rouxinol. Ainda por cima, disse que eu roncava. Mentira desvairada, nunca ouvi nada disso. E vamos considerar que durmo comigo todos os dias!

Ela adora telefone, na verdade precisa falar o tempo todo, seja lá com o que for. Parece que nasceu conversando com a funcionária da rádio relógio de antigamente (depois de tanta tecnologia nem sei se isso ainda existe), sendo que a voz do lado de lá da emissora perdia pela insistência, enlouquecia de vez.

Às vezes, a transmissão era interrompida, chegavam os caras da camisa de força, agarravam a pobre moça entre espasmos e safanões (ela gritava: "eu confesso, qualquer coisa, ao terceiro sinal, nove horas, treze minutos, quarenta segundos, mas eu confesso!") e a estação se via na necessidade contratar outra pessoa para continuar a locução.

Claro que essa minha garota tagarela pretendia me controlar de qualquer jeito, então me deu um estúpido celular. Não sei pra que diabos esse grotesco aparelho realmente serve, além de se gastar energia para recarregar a bateria.

O problema do homem é que a mulher acaba sendo sempre a deusa, mesmo quando está vestida. Fingi que não havia percebido a escova de dentes, que não sabia por que ela tinha me presenteado esse aparelho ambulante imbecil de comunicação, ignorei o discretíssimo rouxinol, araponga ou crocodilo, sei lá eu o que era aquilo. Eu queria beijo na boca, sexo asno, comida caseira e o chinelo no lustre da sala. Acho que era mais ou menos isso que acontecia.

Semana passada, aquele amor eterno acabou, ela foi-se de vez, carregando tudo que era seu. Pensei que havia eliminado todos os vestígios, procurei minuciosamente, mas houve algum engano. Agora, como é que eu vou explicar pra minha namorada atual, que está deitada bem aqui do meu lado, essa calcinha pendurada na hélice do ventilador de teto?

João Prista

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