Que Bigode!

Publicado na edição 051 do jornal Estado do Rio Noticias

12-Ago-2006

Meu bigode guarda cheiros. É a sopa de ervilhas, tangerina, alho frito, pinho, repolho, gorgonzola. O ventre de Letícia, o sovaco de Lucélia...

Meu bigode dá trabalho. Só lavando com xampu, aparando com tesoura, penteando com os dedos, empurrando com a língua, que nojeira! Às vezes, só lavando com água sanitária, creolina, esfregão e soda cáustica.

Meu bigode mede nada, mas não para de crescer. Mais parece trepadeira, ou escova, um rodo, ancinho, unha ou rodapé. Coisa estranha, em vez de crescer para cima, cresce para baixo. Que diabos, meu espelho está turvo, estou mergulhado num saxofone, ou será que bebi demais? 

Meu bigode é tão ralo que contam seus fios. Isso de longe! Porque não têm o que fazer, falam mal de tudo mesmo, não tem importância. Fosse ele robusto, comentariam que sou gaúcho e boiola. Mas não aparece em fotografia, em filmagem ou desenho animado. Não sei onde passar o aparelho de barbear, nem no tato. É preciso microscópio! 

Meu bigode espeta, dizem que espeta. No pescoço, nas costas, na orelha, nos seios, nas ancas, nos olhos. Na língua, no travesseiro e no piercing. No sorvete e no chiclete. 

Meu bigode dá coceira. Chato, fungo, mofo, cravos e artrite. Gargalhadas! O ideal de qualquer caricaturista. Comediante, cientista e dramaturgo. Advogado. Geólogo!

Meu bigode não tem cor. Era preto, ou castanho, ou sei lá. Hoje não, não é branco, não é grisalho, não é. Não é verde, isso vem do meu nariz. 

Meu bigode é efêmero, é fugaz, é gozado, é eterno, é leal, revolto, porco, flautista, irritante, dinossauro e demente.

Meu bigode? Que bigode?

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