Olho Mágico

Publicado na edição 061 do jornal Estado do Rio Noticias

21-Out-2006

Era a melhor máquina fotográfica, todas eram as melhores rosas, para que eu fizesse os melhores closes, para os quais não encontraram palavra justa que traduzisse. O mesmo equipamento me serviria eternizando (?) imagens escolhidas. Minha filha bebê, a namorada de momento, um show (para o qual não encontraram palavra exata que traduzisse melhor), um telhado caquético ou um rinoceronte dançando balé, que aportuguesaram, logicamente este, o balé, não o estúpido rinoceronte, embora este outro tenha um nome pra lá de estranho. Verdade que, vez ou outra, a sogra aparecia na frente da lente e eu era quase que obrigado a registrar aquela tragédia, mas faz parte desse negócio a gente saber que nem todas as fotos podem ser boas.

Tradicional. Havia filme e depois aquilo ia geralmente para o papel. Ou slides, que dispensam tradução, mas há quem os chame de cromos. O resultado do que se registrava era bastante dependente do trabalho de laboratório. Isso desde que o fotógrafo não houvesse feito lambança. Não se conhecia nenhum processo imediatista, como os que a tecnologia nos oferece nos dias de hoje. A curiosidade aguardava aflita pela foto final, que seria quase surpreendente. Em fotografia, apertar o botão uma fração de segundo antes ou depois pode determinar o sucesso ou o desastre.

As fotos de família e as demais do meu "acervo" envelheceram, algumas desbotaram. Meu computador vem trabalhando no sistema de preservação, restauração, re-iluminação, re-coloração. Continuam horríveis, mas de alguma forma, parte da história foi resgatada. Ainda não sei bem que utilidade real pode ter tudo isso, ou sequer faço idéia do que essa nostalgia poderia ser positiva. Guardamos essas preciosidades no meio digital, usamos o absurdo termo "escanear", que ficou por isso mesmo. Em informática, o "scanner", para quem não conhece, é um aparelho que serve para capturar imagens, transformando-as em "arquivos", que podem ser utilizados pelo computador. Poderíamos dizer que é uma máquina xerox mais sofisticada, já que o princípio é quase o mesmo, sendo que a imagem, em vez de ir para o papel, é gravada nele mesmo, claro, no computador. Eu o chamaria de "digitalizador", mas quase não chamam assim, é um scanner. Eu diria que vou digitalizar a imagem, mas em geral dizem mesmo "escanear", que não é uma palavra exata, nem sequer deveria existir. Mas as pessoas entendem, na verdade eu também digo. Pra que brigar? 

Várias imagens ficam abandonadas tanto tempo que chegam a criar teias de aranha. Quando vamos removê-las não sabemos se tememos vê-las ou se temos nojo da sujeira acumulada sebenta no velho papel. Algumas se mostram surpreendentes, ou emocionantes, ou ridículas, como vovô vestindo ceroulas, ou vovó com os cabelos cremosos enrolados em rolinhos coloridos. Sempre houve o momento mágico do clique (para o qual escolheram esta palavra inexata, também aportuguesada), que foi o que determinou o registro visual. Através da lente vê-se outro mundo, inanimado, que pode até ser muito melhor que a utopia ou orgasmos sonhados. Na verdade, isso é apenas um olho mágico... 

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