Oboé Assassino

Publicado na edição 118 do jornal Estado do Rio Noticias

29-Dez-2007

Fiquei horas olhando meu papel vazio, que refletia minha impotência. Eu queria escrever o que ocorrera. Certos acontecimentos são inviáveis. Não comigo, a gente custa a acreditar que sejam possíveis, a ficha não cai, nem com martelo. É preciso ficar inerte durante muito tempo, dias, meses, anos, criar teias de aranhas em volta do pescoço, para se refletir, para se refletir... Na verdade, para se refletir absolutamente nada. O negócio é negar, não aconteceu, e pronto.

Mas meu teto estava destelhado, as luzes todas acesas, a porta dos fundos escancarada, meu escritório estava arrombado e as coisas sumiram! Você entende? Objetos inanimados desapareceram, enquanto fui à cidade beber algumas cervejas. Entende mesmo? Então explique pra mim, porque eu não entendo. As baratas morriam de rir, mas as lagartixas, minhas aliadas para extermínio de insetos, não comem baratas. Odeio baratas! Dane-se, agora não tenho tempo para essas brigas domésticas. 

Sou um sujeito tímido, de poucos recursos financeiros. Aquilo tudo que me tiraram era meu, de mais ninguém, adquirido honestamente. Desde pequeno, aprendi que não se mexe no que é dos outros e sou absolutamente honesto e íntegro. Por que diabos alguém invadiu minha única privacidade? Com que direitos? Por que tamanha violência? Claro, Prista, seu estúpido, porque ladrões são desonestos mesmo! É o ofício. E quantas vezes mais isso poderia acontecer novamente?

Diante de tanta dúvida, preparei algumas surpresas para o invasor, caso resolvesse retornar: ratoeiras, catapultas (no bom sentido), jatos de soda cáustica, até mesmo (sou músico) um oboé assassino.

Sinto-me fugitivo e prisioneiro da violência. Saí da cidade grande porque não agüentava mais os bandidos, a polícia, balas perdidas, a agressividade urbana. Pensei em sair do interior por conta de mais essa invasão aos meus conceitos de convivência inadmissível.

Já se foram alguns anos. Mudei de casa, continuando na mesma cidade. Então invadiram minha garagem, roubaram ferramentas e cagaram nos meus livros!

Como medida drástica, estou pensando em ir morar na floresta com os esquilos. João, o ermitão. O diabo é que não sei falar o idioma nativo, o sexo seria complicado e eu não poderia perpetuar a espécie, não é justo. Muito menos aprenderia a subir em árvores! Ainda mais com esse meu corpinho...

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

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