Modelo

Publicado na edição 066 do jornal Estado do Rio Noticias

25-Nov-2006

Com apenas 21 anos de idade, a bela mulher foi-se da vida, aficionada pelo emagrecimento e culpada por uma sociedade que não lhe permitia afagar a auto-estima. Inexplicável! Como alguém pode negar-se à ingestão de alimentos, provocando a falência do próprio corpo? Que vaidade fanática seria essa? Quanto vale uma passarela? Quando perceberam, o quadro era irreversível e o caixão estava pronto. Fizeram reportagens, com as quais ganharam mais dinheiro, aproveitando a comoção pública. Em seguida, inicia-se a fase denominada "esquecimento". Assim são as notícias.

O mundo tem sido cruel com quase todos, aqueles não "diferenciados" através de "hereditariedade" ou mediante "indicações". Os jovens são formados nas inúmeras faculdades, em grande quantidade, e a competitividade não lhes permite certeza de qualquer futuro promissor, como seria previsível aos padrões do século passado, tempo que quase bastava o canudo de papel, ou até menos que isso. Os órfãos desse sistema sumário desenvolvem a baixa estima pessoal, comandante de frustrações invisíveis e incuráveis. A definição de "felicidade" torna-se confusa, porque não fala mais de família, amor, amizade ou integridade. A importância (e a impotência) de um ser restringe-se à competição desigual, na qual a qualidade e a perseverança perdem a batalha contra a falta de oportunidades, que é cada vez mais contundente. Decerto estão doentes, extenuados pela pressa que assola o planeta.

Como tantos outros mortais, sinto minha auto-estima bloqueada, eventualmente sendo nocauteada a cada dia, esvaindo-se em direção à velhice inevitável enquanto vivo. Sem reconhecimento artístico e sem trabalhos remunerados, não me importa muito se é bom ou ruim o que escrevo ou o que componho, apenas vejo o tempo passar. Há dias que eu queria ter nascido 50 anos antes, quando porventura o que eu faço fosse mais adequado. Assim sendo, hoje eu poderia ser meu ídolo! Exceto pelo que eu não estaria aqui ainda.

Seguindo a mesma analogia da viagem no túnel do tempo, com a qual entende-se que havia mais tolerância quanto aos padrões de qualidade e beleza no passado, aquela jovem mulher teria sido deusa e não aconteceria a morte neurótica à qual ela foi submetida. Também não haveria todos esses noticiários e talvez não tivéssemos conhecimento de sua existência. Entretanto, tudo teria sido mais justo! Ou não.

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

Página Principal de Pristópolis - abre novo browser