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Longo Prazo |
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20-Out-2007 |
Percebi que fiquei velho quando deixei de sentir prazer por produzir barulho, muito barulho! Isso hoje me incomoda, prefiro o silêncio. Por mais paradoxal que pareça, afinal já não ouço quase absolutamente nada. Desisti de andar veloz de moto, ou de carro, colocar a vida dos outros em perigo. A minha nunca estava, eu era o Super Homem. Naquela época eu viajava através de engarrafamentos absurdos, mas ficava feliz. Passava todos os finais de semana, inclusive os “feriadões”, nas regiões mais movimentadas. Gente pra cacete! Programa de índio. Mudei muito. Agora eu quero sossego, odeio essa fumaça dos outros fumantes e veículos poluentes. Acho que tenho até o direito de respirar, pode isso?
Pois é, fiquei velho. Não sei se valho. Pior que não tenho emprego, muito menos aposentadoria. Se não tenho emprego, sou vagabundo. Se não sou aposentado, não sou vagabundo. Veja só com que dilema os presidentes me colocaram!
Passei a sentir dores nos joelhos, nas juntas, que talvez não estejam assim tão juntas. Parece que perdi o prazo de validade. Acho que as caminhadas me salvam do holocausto, ou pelo menos das minhocas. Na verdade, eu não gosto de caminhada, mas é o único movimento que executo com alguma parte que não sejam as pálpebras. Logicamente sou acompanhado por uma equipe de suporte, ou de resgate, já não sei. Balões de oxigênio, cadeira de rodas e UTI. Bem que eu queria ter um dublê para essa tarefa árdua, mas talvez o resultado orgânico não fosse o mesmo e o financeiro inviável. Porém seria um sonho, eu ficaria no bar bebendo cervejas, enquanto ele faria uma seqüência exaustiva de exercícios benéficos a mim. Ufa!
Nos primeiros dias da dentadura, eu pensava que jamais teria novamente satisfação por comer nada, nem filé mignon! Entretanto fui me acostumando, hoje como tudo que o médico me proíbe, rabada, pescoço de galinha, ossobuco, siri e o cacete, fácil. Ainda tenho uma vantagem: quando estou preguiçoso, peço à minha filha para escovar os meus dentes, que ficam num copo dentro do armário do banheiro, e vou dormir. Tá legal, a gente se adapta a quase tudo, mas essas malditas fraldas descartáveis não, isso é a morte!
Meus pais morreram. Meus tios morreram. Amigos morreram, vizinhos, conhecidos, muitos morreram! Perdi a conta de quantas homenagens póstumas já escrevi. Basicamente não vou a enterros, mas fico assustado ao imaginar que serei obrigado a ir justamente ao meu!