Folia dos Pajés

Publicado na edição 076 do jornal Estado do Rio Noticias

24-Mar-2007

Todos aguardavam ansiosos pela volta da chuva, depois de tantos dias de estiagem, rezavam feito pajés, faziam promessas, simpatias e macumba. Todos, menos eu. Odeio chuva!

Quando fico irado com esse tipo de acontecimento, minha filha mais nova costuma dizer:

- Calma, pai, é apenas água. 

Apenas água? Tá maluca? Perdeu a noção da real? É muita água! O grande desafio da humanidade vai ser conter as águas! 

Moro numa cobertura. Putz, essa mania de grandeza, na verdade moro num sobrado BIZARRO, mas não deixa de ser uma cobertura, ninguém pode me chamar de mentiroso. Eu tenho a impressão que fica de frente pros fundos. De um lado tenho vista para um telhado velho, do outro para um catador de lixo, do outro... Paredes. Muito confortável, afinal as baratas não reclamam. Falta luz, falta água, principalmente quando chove. 

Veio o temporal, com direito a vento, raios, trovão e todas as conseqüências. Tirei tudo das tomadas, salvei o colchão de um alagamento. Vesti o traje de mergulhador. Arrastei a mesa do velho computador, espalhei baldes embaixo das goteiras, coloquei panos estratégicos nas janelas. Usei freneticamente o rodo para dispersar todo aquele lamaçal, até que fui definitivamente vencido e berrei 36 minutos.

A tempestade passou. Lar, doce lar. Meio molhado, porém doce lar, afinal não é água do mar. Não consigo me acostumar com essas galochas, nem com o tapete boiando. Aquele cara ali estava dentro da privada, quando acabou a água encanada, eu tenho certeza! Do jeito que está, pelo menos não vou pisar. 

Pois não, senhor, corpo de bombeiros? Risco de desabamento? Querem entrar para trabalhar no meu imóvel? Claro, tudo bem, vamos entrando (cuidado para não pisar!), mas foi apenas água... Não, não há criancinhas afogadas na casa. Você também, por aqui, cuidado para não pisar!

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

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