Féretro Bizarro

Publicado na edição 120 do jornal Estado do Rio Noticias

19-Jan-2008

Todos os veículos seguiam lentamente o cortejo funeral. O policial apareceu de motocicleta e mandou o carro da funerária encostar.

- Boa tarde! Documentos. 

- Boa tarde, seu guarda! Estamos a caminho de um enterro.

- Percebi, entretanto preciso ver os documentos.

- Não estão aqui comigo, mas podemos resolver isso mais tarde, lá na empresa.

- Sinto muito, vou ter que rebocar o veículo.

- Vamos ponderar a respeito disso, há um defunto aí atrás, prestes a ser sepultado, e essa gente toda está sofrendo por causa desse evento.

- Não é problema meu.

O caminhão de reboque chegou quase que imediatamente e foram realizando os procedimentos, aguçando ainda mais a ira das pessoas.

- Ei, o que está havendo aqui? 

- Estamos rebocando o veículo da funerária.

- Vocês não podem fazer isto! 

- Ah, podemos sim. O elemento ao volante não está de posse dos documentos, nem sequer carteira de motorista ou de trabalho. Vamos seguir as ordens expressas.

- Isso é um absurdo! Meu tio morto está dentro daquele caixão! 

Diante de muitas discussões acirradas e bombas de efeito amoral, foi solicitado reforço policial e rebocaram o meio de transporte da “Funerária Você na Fila”, levando o falecido. E quase todos (enfurecidos!) foram juntos até a delegacia, para protestar, prestar depoimentos ou resgatar os restos mortais da memória, quiçá a memória dos restos mortais, sabe lá? Muita confusão! O delegado tentava organizar a bagunça, o banzé, a algazarra. Havia uma velhinha pra lá de passada entre os presentes. Parecia uma criatura esculpida em um queijo flácido, mofado e esburacado. Mas ela estava agitadíssima!

- Vamos ouvir primeiramente a vovó, maiores de 65 têm prioridade.

- Você é louco? Ela não tem nada a dizer! Não está vendo? É louca e senil.

- E devolve a minha dentadura! – bramiu a velhota. 

Posicionaram a dona, em sua cadeira de rodas, recomposta de seus dentes postiços, próxima ao homem da máquina de datilografia (oh, céus, delegacias ainda têm máquina de datilografia!) e o poderoso argüiu:

- O que a senhora tem a declarar? 

- Como disse?

- O QUE A SE-NHO-RA TEM A DE-CLA-RAR?

- Meu filho, esse enterro está o maior barato! Nunca fui a um igual! Poucas vezes me diverti tanto. Quem foi mesmo que morreu? Tenho que me lembrar disso!

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

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