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Enigmas do Palco |
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11-Ago-2007 |
O artista trabalha para afagar a emoção das pessoas. Não há dinheiro que pague esse dom. Somente o carinho, o aplauso, ou o reconhecimento poderia gratificar ao artista.
O verdadeiro artista é rico de público, não fica feliz por causa de iates, porque iates não têm sentimentos. Não é possível fazer um iate sorrir ou chorar, ouvir uma música, contemplar uma tela, entender um roteiro ou apreciar um bom livro. Iates são estúpidos!
O artista é solitário e tem um ego pra lá de sensível. E tropeça em outros artistas. E quer sempre fazer melhor. E fica frustrado quando não consegue. E esconde seu lado triste. E luta.
O artista se alimenta de sucesso. Jamais aceitaria fazer dieta desse suprimento indispensável. A fome é insaciável. Fica extremamente vulnerável à frustração, mas qualquer elogio reverte esse percalço. Engorda com manchetes e coleciona recortes, imagens, sons, entrevistas. Guloso de si mesmo, faz sua história.
O artista não é habitante, é paisagem. Iluminado pelo sol, pela lua, ou por holofotes. Brilha na vitrine ou na ilusão. Faz chover, faz estrelar.
O artista não tem cerimônia, invade lares, pensamentos, olhares, sonhos ou até o prazer. Diz o que se quer ouvir, mostra o que se quer ver. Veste-se de diamantes falsos, que parecem verdadeiros, e realiza sonhos.
O artista ensaia ser produto à exaustão. Precisa que a exposição seja impecável, que a atenção do expectador seja escrava.
O artista renova mil vezes o que já foi renovado, reinventa a roda que só aparece no palco. Os técnicos preparam o cenário, estudam as luzes, porque pensam que sabem mais que o público. Oculta-se os bastidores, investe-se o mínimo e enfatiza-se a bilheteria. E é assim que o show acontece e o empresário enriquece. Aquele que não der lucro é descartável.
O artista também envelhece, quando fica esquecido e percebe que é absolutamente igual a todos os mortais.
João Prista