Coquetel de Aline

Publicado na edição 122 do jornal Estado do Rio Noticias

02-Fev-2008

Meu primeiro emprego, oitavo dia de trabalho. O chefe me mandou a 29 lugares, 7 vezes ao mesmo banco, 9 vezes aos Correios. Claro, não era ele quem ficava na fila. No fim do dia eu estava exausto, o único sobrevivente de um liquidificador, saindo arrastado do edifício comercial. O salto do sapato ficou preso na escada rolante. A bainha da calça ficou presa na escada rolante, com a minha intenção de resgatar o calçado. Eu fiquei preso na maldita escada rolante e a coisa emperrou.

As pessoas apressadas passavam por cima de mim, pisoteando. Dado à aparência escatológica, sujo, rasgado e com um pé descalço, tive dificuldade que me deixassem entrar no ônibus lotado, porque pensavam que eu fosse um mendigo, tarado ou assaltante. A velhinha, sem mais nem menos, sentou o guarda-chuva no meu quengo e o policial completou o serviço, de cassetete, com o maior prazer.

Desfeito o engano, consegui chegar no prédio, nem lembro como. O porteiro metido a machão demorou uns cinco minutos para me reconhecer, mas acabou colocando-me gentilmente dentro de um carrinho desses de supermercado e me ajudando a achar meu apartamento. Essa gentileza toda foi porque eu ameacei contar pra todo mundo que eu o havia flagrado namorando Aline (o traveco do 309) na escada da garagem.

Finalmente entrei em casa, mas não enxergava absolutamente nada, de tanta porrada que levei na cara. Um olho estava no queixo e o outro na omoplata! Tropecei num chinelo largado, derrubei o abajur, quebrei a mesa de vidro e acordei 15 dias depois, na UTI, com um padre ao lado rezando por mim.

Voltei ao trabalho, ainda com algumas sequelas: um olho no queixo e o outro na omoplata. Meu adorável chefe, logo pela manhã, mandou que eu engraxasse seus sapatos, retirasse o lixo, lavasse o banheiro e fosse 8 vezes ao mesmo banco. Ah, como eu queria tê-lo flagrado com Aline! Acho que ele percebeu meus pensamentos e perdi o emprego.

Cheguei em casa, movido por um sentimento incontrolável de vingança. Qualquer vingança. Escolhi um coquetel na máquina de lavar roupas. Água, sabão em pó, pimenta, cacos de vidro, cloro, pregos, soda cáustica... Cadê o gatinho?

João Prista

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