Coisas

Publicado na edição 050 do jornal Estado do Rio Noticias

05-Ago-2006

Não podemos ser nômades, temos muitas coisas. Pior que isso, a maioria é desnecessária. Inúmeras vezes pensei em me mudar para o Nordeste, ou Portugal, mas tudo acaba me parecendo complicado, um fardo. Ou um fado, sei lá.

Quando minha velha mãe morreu, eu doei todas as coisas dela. Percebi a inutilidade efervescente à minha volta. Nada daquilo logicamente me serviria, mas, analisando melhor, constatei que mais de 90% dos seus pertences já não lhe traziam o menor benefício havia muito tempo.

Passei a prestar mais atenção às minhas coisas. Talvez o percentual de objetos imprestáveis seja proporcional à idade, mas era evidente que eu também já não fazia uso de uma quantidade considerável de tudo que eu tinha. Comecei a doar, jogar fora, sem falar dos papéis, que sempre se pariram e eu nunca tive paciência para organizá-los. Porque precisamos comprovantes, de história, de cartas que escrevemos ou recebemos, de cartões de Natal, ou de trabalhos exemplares da época de colegial. 

Gastamos um tempo enorme com as coisas, para adquiri-las, carregá-las, para cuidar das que nos são mais caras, não nos sobra energia suficiente para nos desvencilharmos delas. 

Vivemos arraigados às coisas, não podemos transportá-las, sentimos ciúmes de algumas delas, outras são imóveis, todas absolutamente passageiras e dispensáveis, mesmo que juremos o contrário até a morte! Todas momentaneamente úteis ou inúteis, passageiras e dispensáveis. 

Nosso instinto de sobrevivência nos delega que queiramos envelhecer, independente de ficarmos decrépitos ou não. Em geral os idosos precisam de coisas básicas: uma dentadura, aparelho de surdez, cadeira de rodas, roupas de andar em casa, cama e banho, além dos remédios, fraldas, suprimentos de higiene e um "mata-moscas". Digamos que seja esta a relação do que irá para o lixo, as outras coisas vão ficar para alguém decidir o destino, o que não é fácil.

Envelhecemos cercados de entulho. Coisas que não falam conosco, não nos beijam, não ouvem nossas queixas, não nos contam segredos, não nos ensinam nada, já não são mais bonitas, nem nos dão prazer, porque também ficam velhas e imprestáveis. Decididamente, elas não nos deixam ser nômades.

Exageramos com as coisas, na verdade são elas que acabam determinando o que vamos fazer hoje e amanhã. Seria ótimo se tudo pudesse ser vendido instantaneamente, a qualquer momento desejado, a preço justo, e a gente pudesse simplesmente aproveitar a vida, levando apenas nosso acervo de recordações!

João Prista

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

Página Principal de Pristópolis - abre novo browser