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Canto Lírico |
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27-Out-2006 |
As cantoras não são mais cantoras, são bailarinas ofegantes. As músicas não são mais músicas, são tribais. O público não vai mais assistir, de jeito nenhum, vai participar, pular, gritar, uivar, levantar as mãos, sair do chão, qualquer coisa que não exija absolutamente raciocínio algum. Latas descartáveis, copos descartáveis, artistas descartáveis. Ninguém se preocupa com o que quer que seja dito nas letras, quando há algo dito ou letras. Nada faz sentido, mas e daí? O que é mesmo sentido? Coisa de militar?
Para esses empregos, não há anúncios nos classificados. "Precisa-se de professora de aeróbica, que saiba cantar" seria um deles. E tudo rola na encolha. Mas o processo seletivo é intenso, quando a candidata não tem QI, claro, como em qualquer outro processo seletivo.
A fase inicial de seleção até que é amigável. Logicamente, a concorrente deve estar trajando saias curtas e ter belas coxas. Durante a entrevista é necessário que haja uma performance irretocável.
- Você sabe dizer "sai do chão"?
- Sei sim senhor.
- Então, vamos lá, mostre-me!
90% das concorrentes são eliminadas nesse primeiro teste. É preciso, ao dizer a frase, entoar com bastante entusiasmo, subir na mesa ou se pendurar no lustre e chutar o teto, para que o entrevistador fique satisfeito.
A segunda etapa é muito mais fácil. Refere-se às "mãozinhas", a candidata precisa responder que quer vê-las para cima, e "chap, chap, chap, chap, sai do chão", logicamente, sem se esquecer da mesa, do lustre e do teto.
Caso aprovada nesses fundamentos, a moça é encaminhada à "Avaliação Artística Número 1", para saberem se ela sabe dançar. Geralmente, professora de aeróbica domina bem esse fundamento, não costuma ser problema.
É hora de cantar, ou da cantada, ou algo parecido. O teste do canto é realizado na cama, raramente no sol-fá...