Bazuca Acidental

Publicado na edição 044 do jornal Estado do Rio Noticias

08-Jul-2006

Houve um churrasco na casa dela, nós fomos, participamos, comemos, bebemos, dançamos. Lá pelas tantas, aquela perua estava olhando pro meu marido, eu percebi de imediato. Ele tentava disfarçar, mas o desgraçado olhava de volta. E com cumplicidade! A noite foi ficando tensa. Hora lá, ela resolveu dançar com ele.

- Você não se importa, não é querida?

O meu "não" deve ter soado parecido com soluço de gago, ou desastre de trem, ou jabuticaba no vestido de noiva. Foram eles atracados, entre os outros bêbados. Que ódio! 

O marido dela é feio, burro, velho, surdo e trabalha na peixaria, fede até depois de uma lipoaspiração geral. Eu não encaro. Como poderia me vingar? 

Aquilo se repetiu algumas vezes, ora na nossa casa, ora na deles, em qualquer festa. Foi ficando insuportável, até porque o fruto do mar também percebeu e foi se engraçando pro meu lado. 

Eu sei que sou gorda, todos sabem que toda gorda tem vontade de se suicidar, mas eu precisava de tempo para me vingar antes disso. É verdade que fiquei maquinando algumas hipóteses, um tiro em cada um, bomba relógio, assassino de aluguel, escorpiões, Mike Tyson... Nada me parecia bastante, ou viável. Ou prazeroso. Resumindo, não fui eu.

Bom, meritíssimo, aquele tiro de bazuca foi acidental, eu estava apenas manuseando o equipamento, juro! Por que eu iria matar aquelas outras pessoas cretinas inocentes? Não sobreviveu nem o papagaio, com quem agora eu vou conversar?

João Prista

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