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84 Horas |
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28-Jul-2007 |
Ficamos juntos durante 3 dias e 4 noites. Quando acordamos pela quarta vez, eu perguntei seu nome. Noêmia. Tomei banho e fui embora.
Os ônibus passavam lotados de gente que ia trabalhar. Os velhos, que não pagam passagem, viajam em momentos mais confortáveis e convenientes, então eu estava fora do meu fuso horário. Resolvi caminhar pelas ruas de dentro, menos movimentadas. Procurava uma praça ou um botequim que tivesse uma mesa de sueca, com jogadores decrépitos bebendo cerveja e cachaça. Não achei, mas essa busca serviu para que a condução esvaziasse e eu pudesse voltar pra casa.
Não sei o telefone de Noêmia e não lembro como se volta naquele subúrbio cáustico. A dentadura dela estava dentro do bolso direito da minha calça e eu não sabia por que. Isso fez com que eu me sentisse culpado, ela não poderia mastigar as torradas do café da manhã.
Não é muito comum alguém levar uma dentadura no bolso da calça a um baile de terceira idade, mas eu tinha esperança de reencontrá-la. Eu gosto muito de dançar, de preferência bem juntinho.
- O senhor queira me desculpar, mas tem alguma coisa dura, no meio da sua perna, que está me machucando.
- Ah, sim, perdão, é a dentadura no meu bolso.
- Dentadura no bolso?
- É da Noêmia.
- Dá licença, o senhor deve ser louco! Dentadura no bolso, eu, hem! Era só o que faltava...
Já se foram 4 dias e 3 noites. Os dentes devem ter mordido meu bolso, onde fizeram um buraco, caindo pela perna, ontem quando eu subia no ônibus, direto dentro do bueiro. Não houve como proceder o resgate. Daqui a pouco vai começar o baile. Noêmia nem se lembra mais de mim, exceto por não poder mastigar. Deve estar possessa! Seria mais inteligente se eu fosse dormir. A integridade manda que eu devolva a prótese, mas não posso sair, não mesmo. Só se eu conseguisse achar minha dentadura, ou será que aquela do bueiro não era de Noêmia?