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Travesseiro |
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19-Set-2009 |
Vários dias no mesmo bar, ela não me viu. Abracei meu travesseiro, como se fosse a namorada que eu quero e que não tenho. Certo dia, acho que sujei a cama, como quando era adolescente e não sabia o que se passava. Depois disso fiquei com receio de pousar a cabeça sobre o travesseiro, que já não me parecia tão higiênico ou confiável, até que troquei de bronha, digo, de fronha.
Deitei no divã. Contei que o travesseiro me ama, descrevi o sexo fantástico que a gente fez, rodando sobre a enceradeira. O cara olhou para mim como se tivesse visto uma camisola falar! Perdi a paciência, joguei uma poltrona dele pela janela. Não houve reação, com louco não se discute, então voltei para o bar.
Lá estava ela, mas não me viu. Olhei e olhei, e olhei, e olhei para ela, e bati a testa no gargalo da garrafa de cerveja. Ela já não estava lá. Acho que nem eu. O cara do táxi já sabe onde moro e o porteiro sempre usa um carrinho desses de supermercado, para me desovar no apartamento. Ele me ajuda a sair do veículo, pega as chaves no bolso combinado e abre minha porta, eu me estabaco em qualquer lugar dentro de casa. Só uma vez aconteceu um acidente, quando eu esqueci de dar a gratificação e ele me deixou dentro do carrinho na beira da escada...
Debaixo da coberta, abracei mais uma vez meu compreensível travesseiro, que me ama. Mesmo! Tudo que eu havia ingerido resolveu pedir independência, saindo de mim. Após eu ter vomitado tudo que podia, dormi 13 horas consecutivas. Depois de sonhar com camarões, acordei com as pernas na cama e a cabeça no tapete, comendo uma meia.
Divã é o cacete! Fui direto pro bar. Até a décima primeira eu bebi, depois disso arrotei e, instintivamente, chutei o garçom. Dessa vez ela me viu, mas virou-se de costas. A dondoca não gosta de confusão. O garçom sabe que vai ganhar uma gruja especial, por conta dessa bobagem, o taxista vai me cobrar mais caro, não lembro se dei a propina do porteiro...
Deitei por cima do travesseiro, que me ama, apesar do bafo de cachaça.
João Prista