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Manchas e Fantasias |
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20-Fev-2010 |
Eu queira ter uma namorada, mas tive que me contentar com as fantasias.
Mamãe Prista, eu lembro bem (se lembro!), gostava muito de me fantasiar, de preferência com o que houvesse de mais ridículo. Recordo ainda de algumas delas: Zorro, palhaço, xeique, xícara, tudo com muito cetim, deveras apropriado ao clima do nosso Carnaval. A exceção foi uma fantasia de índio, cheia de franjinhas, de calça comprida e de manga até o punho, que era toda de veludo, muito veludo! Na época, ganhei até um apelido de “veludinho”, que me deixava possesso.
Mas logo aprendi a me vestir sozinho, aos dez anos de idade, e não permiti mais essas atrocidades. A partir daí, as fantasias foram outras.
Havia uma vizinha de janela, eu no segundo andar do prédio de cá, a moça no primeiro do prédio de lá. Ela errou na matemática dos filhos, eram 3 garotos e 1 menina, todos pirralhos. “Ora, se era para ter 4, deveria ter sido ao contrário – pensava eu – pra que tanto sacudo?”
A tal janela ficava a uns 8 ou 10 metros da minha, numa diagonal um pouco à esquerda para baixo, e eu ainda enxergava bem. O máximo que ela vestia, dentro de casa, era uma micro calcinha. Apesar de ter parido quatro vezes, a dona era boa, sô! Eu fazia de tudo para não abandonar o meu posto de observação.
Foi assim que surgiu uma mancha meio amarelada, na parede abaixo do parapeito da minha janela, por dentro. Mamãe Prista mandava pintar, mas eis que novamente lá estava ela de volta, a mancha. Estranho!
Foram muitos anos nisso, até que a menina se tornou uma tremenda gatinha! De forma que, naquele momento, passaram a ser duas musas para se espreitar. Se eu não cantava a mãe porque era muito mais velha, não podia cantar a filha porque era muito mais nova.
Mamãe Prista estava intrigada com aquilo.
- Curioso, filho, essa mancha escorrida na parede, com os anos, foi ficando mais consistente e sempre subindo mais um pouquinho...
João Prista