Fricção Científica

Publicado na edição 004 do encarte Caderno de Entretenimento

24-Abr-2010

Abril de 2010. Hora do adeus. São onze anos e quatro meses de Cachoeiras de Macacu. Até 2002, praticamente ninguém falava comigo. Beatriz ainda não fala. E, se Jesus não der um jeito nisso, nem vai falar. Considerando que sou muito tímido, foi uma conta razoável, apesar de um pouco chata. Cega. E surda, e muda. Imunda.

Depois disso, por estar escrevendo em jornais (penso eu), passaram a me “enxergar”, mas só a plebe. Nessas circunstâncias, que perduram até hoje, nunca houve oportunidades. Deve ter sido porque sou gordo, uso cuecas samba-canção, unhas encravadas, escrevo bobagens, sou “não fumante” (e ainda por cima reclamo das fumaças dos outros, que absurdo!), bebo cervejas “baixa renda” e sou Tricolor de coação. E sou forasteiro. E não notório. E aquele trem iluminado, que vem lá do fim do túnel, está quase me atropelando. Não gosto de trens, têm muito vagão vagando.

Tenho alguns leitores confessos, coitados!, mas espero que não os prendam por isso. São todos inocentes, o único louco sou eu, juro! Nem sei se são verdadeiros, mas decerto que não são paraguaios. Pois que não me prendam também, não sou prendado.

Em 29-Nov-2003, 8 dias antes do falecimento da Mamãe Prista, publiquei uma crônica intitulada “Forasteiro” (1), que continua tão atual quanto o camelo no deserto, ou um cágado na lagoa e uma pulga atrás da orelha. Ou seria um cágado montado na orelha e o camelo na pulga? Que estranha orgia! Gozada, no deserto, ou na lagoa.

Depois de tantos anos no mesmo lugar, a preparação para a despedida é muito mais difícil, parece que ficamos arraigados. Ontem eu abracei uma amendoeira, lá na praça de baixo, e disse: “eu te amo, não sei como vai ser essa separação”, mas ela não deu a mínima pra mim, nem se mexeu, sequer um passarinho revoltado cagou na minha cabeça. Quanta cerimônia!

Às vezes, reclamo da sorte, da falta de grana. Apesar de não ter cágado na cueca. Não hoje. Continuo sendo forasteiro, aquele mesmo da crônica antiga.

Já não sei se devo montar na orelha, na pulga, no camelo, ou no cágado, o fato é que preciso tomar uma atitude, ir embora, uma altitude, que medo! Sei lá. Estou indo.

Confesso que, em certos dias funestos, costumo jogar sueca no bar da quadra do Ganguri, onde convivo com um monte de “coleguinhos” (® Edgarzinho – eu, hem!) senis, tanto quanto eu. Só não quero chegar no estágio “damas e dominó”, seria a morte! E se me convencerem que eu tenho que me candidatar a “verei a dor”? Ou a perfeito? Socorro!

Cientificamente, está comprovado que preciso de um gole. ´Té já! Ou adeus, sei lá. Onde o contra-regra pôs o copo? A bebida está “cágada”? Ou gelada? Há deus! Sei lá...

João Prista

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

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