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Comprador Compulsivo |
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26-Jul-2008 |
Juliano travava uma batalha atroz para entrar em casa, onde ele quase nem cabia. Sofria de uma doença crônica: comprador compulsivo. Pior ainda, tinha dinheiro suficiente para reabastecer sua neurose. Seu cérebro não processava perguntas básicas, tais como: por que comprar isto? Para que serve? Vou mesmo aproveitar essa coleção? Pra que tanto? Estou comprando só por causa do preço? Por que eu quero essa coisa? Será que vou comer esse queijo todo antes de mofar? Quem sou eu? Que cérebro cágado!
Então não podia guardar o carro na garagem, porque outros lá estavam, e também espalhados até a porta, uma frota! Ou um afronto? Paciência, estacionava na rua. Respirava fundo e abria o portão, empurrando os bichinhos de estimação, que tentavam aproveitar para sair. Cães, gatos, patos, galinhas, até uma girafa, que ele adquirira numa liquidação relâmpago de um zoológico extinto. Era o momento de alimentar a tropa.
Aproximadamente hora e meia depois, chegava exausto ao gradeado da varanda, ainda convivendo com lambidas e bicadas, quando era necessário sobreviver e impedir que os bichinhos entrassem. Ufa!
Dentro de casa não havia quartos, sala, cozinha, nada, apenas corredores: um em direção à cama, outro à geladeira, ao fogão, à privada... As “paredes” desses corredores eram compostas de vários objetos, livros, CDs, DVDs (onde diabos fica a televisão?), coleções diversas amontoadas, roupas, bibelôs, vinhos, relógios, brinquedos, agendas, óculos, tamancos, tudo. Era preciso usar de muita prudência para não desmoronar uma parede daquelas, o que o deixaria definitivamente “soterrado”. Em algum lugar, além daquelas pilhas, havia armários guardando documentos inalcançáveis, escovas de dente, remédios fora do prazo de validade, cartas de antigas namoradas, guarda-chuvas, panelas, pratos, discos do Caubi, pimenta mofada e sabe lá o que mais...
Certa noite, chegou e morreu dentro do carro, logo após estacionar na mesma rua. Não se sabe de que jeito levou tantas manias para o túmulo. Juliano sempre foi problemático, mas sobretudo na hora do inventário. E quem diabos vai comprar uma girafa?
João Prista