Caranguejo Pianista

Publicado na edição 004 do encarte Caderno de Entretenimento

28-Mar-2009

- São Pedro, eu preciso entrar no céu.

- Mas me conta, meu filho, como foi que você morreu?

- Aquele estúpido jogou o puçá. Eu fiquei preso naquela carne gosmenta, de onde fui arremessado em um isopor cheio de pedras de gelo. Pedras, Pedro, um monte delas! Gélidas. Eu já estava meio desfalecido, quando ele me jogou dentro de um tanque, junto com todos que estavam comigo no isopor, e abriu a torneira de água fria. Eu ainda conseguia mexer a garra esquerda, mas ele nos entregou à mãe dele, que nos fez refogados, afogados em pimenta de todos os tipos, do reino, malagueta, sei lá. Mesmo com isso tudo, eu não morri ainda...

- Não morreu? E como foi?

- Vieram aqueles 62 caras enormes, vestidos de branco, uns 8 prenderam minha garra direita, outros 10 pegaram a esquerda, outros foram imobilizando minhas patas. Vestiram-me uma camisa de força e deram-me choques elétricos na cabeça e no casco. Sabe o que foi pior, São Pedro?

- Não, filho, o que foi?

- Eles me desfiaram e me venderam como casca de siri! De siri, São Pedro, imagina que humilhação!

- Meu filho, qual era lá a sua profissão?

- Pianista, São Pedro. Mozart, Verdi, Beethoven, Wagner, Tchaikovsky... Claro, também Chopin e Brahms, minhas bebidas prediletas.

- Sinto, meu filho, mas não posso deixá-lo entrar no céu.

- Por que não, São Pedro?

- Você mentiu! Mamãe não colocou tanta pimenta assim...

João Prista

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

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