Bilhares

Publicado na edição 002 do encarte Caderno de Entretenimento

31-Mai-2008

Omar quebrou o taco de sinuca na cabeça de Jerônimo. Não foi pessoal, o coitado não havia feito absolutamente nada, não eram sequer adversários, apenas um pequeno descontrole, coisa de quem está perdendo. Aquela maldita bola 7 não caiu na caçapa, só isso. Jerônimo, que estava tão somente assistindo o jogo, fazendo companhia ao amigo jogador, depois daquela tacada no cérebro deu entrada na emergência do hospital com traumatismo craniano, ficou 4 meses na UTI e outros 16 para ter alta, sob recomendação de acompanhamento psiquiátrico.

Chegou em casa e levou uma lambida saudosa, chamou a cachorra Lili de Leonora, que era o nome de sua fiel esposa, que ficou enfurecida! Não reconheceu os filhos pequenos, que também não faziam muita idéia de quem diabos ele era.

Percebeu-se que Jerônimo estava um pouco agressivo, lascou vassouradas no jardineiro, jogou o aquário na empregada, eletrocutou o carteiro e deu descarga por meia hora com o gatinho dentro da privada. Ah, e colocou soda cáustica na canjica da sogra. Além disso, parecia meio estranho, conversava o tempo todo com uma lagartixa morta agarrada pelo lado de fora da janela, vestia roupas do avesso, calçava chinelos nas mãos e fazia xixi no piano do maestro Etelvino.

Lembrou-se do amigo Omar. Aliás, amigão. Como joga sinuca! O tempo todo não sai daquela mesa logo da entrada, nem pra jantar, só arreda de lá quando fecham o bar. É garantido que ele esteja lá jogando neste exato momento, de costas pra porta, debruçado na mesa, concentrado numa caçapa. Dá gosto de ver, que talento! Mata todas. Naquele dia a bola 7 não caiu. Acontece até mesmo aos gênios!

Com todas essas recordações, Jerônimo resolveu procurá-lo, rever o amigo. Entrou no salão de bilhares dirigindo uma jamanta lotada de carros a 140 km/h...

João Prista

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