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2441 |
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08-Jul-2008 |
Era o ano de 2441. Não havia mais ninguém feio, porque todos usavam máscaras. Nem gordo, porque não havia muito o que comer. A alimentação toda era baseada em carne de humanos e os ricos gostavam muito dos pobres. Na verdade gostavam de comê-los, com temperos especiais. Ou espaciais. Ah, esses ricos, sempre foram espertos! Só agora a gente consegue entender por que eles tanto incentivavam a proliferação dos miseráveis no século XX. Diziam que os homens aprenderam desde cedo a comer carne de porco e que nunca houve mesmo religião entre os poderosos. Só para os que usavam esse veículo como fonte de renda, logicamente. Portanto ninguém sofria de problemas de consciência, afinal era só comer um pobre qualquer. O único problema que perdurava era quanto à higiene do que chamavam de porcos e dos restaurantes.
Não se falava mais de camada de ozônio, nem de florestas, nem de preservação das espécies. Na verdade, a maioria das pessoas não sabia sequer o que teria sido isso. Tornara-se, então, necessário procurar a possibilidade de sobrevivência em outras estrelas, em outras galáxias. Foi assim que eu vim parar em Pisomeu, um planeta mil vezes maior do que a Terra, muito distante, habitado por criaturas imensas, onde parecíamos simples baratas! Conta a lenda que os astrólogos até o século XX foram todos míopes, fato para explicar o motivo de que não tivessem visto tamanha aberração.
Os Pisomeuanos começaram a perceber a nossa invasão e capturaram alguns de nós, principalmente os pretos (acho que eles tinham medo de barata branca) para fazerem experiências com novos produtos inseticidas. Era muito desagradável. Fiquei assim deformado por causa de um pequeno descuido: certa noite, para fugir dos Pisomeuanos, acabei me escondendo dentro de uma torradeira elétrica. Percebi que os Pisomeuanos eram primitivos, tentavam nos pisar com o sapato bico fino, do mesmo jeito que faziam os homens da Terra no século XX, e ficavam enojados por causa daquela gosma vermelha. Ainda assim, sorte deles que não somos voadores.
Vida de barata é muito cansativa! A gente precisa ficar procurando cantinhos, frestas ou fendas, para escapar dos sapatos. É necessário encontrar migalhas espalhadas na cozinha, sempre à noite, quando os moradores estão geralmente adormecidos. Só que existem os assaltantes de geladeira, normalmente portadores de insônia, que ficam furiosos diante da nossa presença. A batalha é inevitável e estamos sempre em desvantagem. Mas continuamos dando as nossas trepadinhas, sem qualquer controle de natalidade. Só que não temos cesarianas, nem médicos na equipe (já foram todos capturados ou exterminados), apenas esconderijos improvisados. Levamos chineses na missão, para ajudarem na procriação, e a coisa até que estava indo bem. Torcíamos por uma guerra nuclear em Pisomeu, pois sabíamos que seríamos os únicos sobreviventes. Aprendemos nessa aventura que errar é humano. Repetir o erro é humano, porque a burrice é humana. A continuação repetida disso pode gerar uma barata.
João Prista