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Pai do Pedro |
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03-Set-2005 |
Na vida a gente escolhe caminhos até que se chegue ao fim da estrada. Ninguém sabe exatamente o que é o fim da estrada, se é o começo de outra dimensão, um retorno, se as minhocas representam assim um tipo de vingança ou se a gente vira barata. Alguns investem posturas em troca de que isso possa ser melhor. Faraós construíam pirâmides. Questão de crença.
É chocante a morte de um garotinho, é chocante a morte de um adolescente. É chocante ficar velho. Mas nem sempre é chocante ficar velho. Lembro que o pai do Pedro morava sozinho, fazia as compras no supermercado, andava de ônibus, chutava as lâmpadas do teto por diversão, sei lá se jogava baralho na praça com os outros aposentados. Será que usava dentadura? Decerto que ele tinha 95 anos de idade. Um dia lá, simplesmente morreu, enquanto dormia. Disseram que parecia estar sorrindo. Enfim, achamos que é chocante a morte. Quase todas, não essa dele. Sabemos que ela virá, mas não temos a menor idéia de como ou quando será a nossa. Nem queremos saber, mesmo quando se está doente.
Não sei se o pai do Pedro foi feliz, não o conheci, nem o nome me foi apresentado. Era apenas o pai do Pedro, que morava em algum canto de Copacabana. No que teria ele trabalhado? Gostava do que fazia? Comia folhas ou carnes gordurosas? Ou mulheres? Fumava? Talvez gostasse de esportes radicais, assim como os que seu neto agora pratica. Possível que dormisse cedo e madrugasse de pé, ou que fosse boêmio. Seria maldade minha fazer essas perguntas ao Pedro apenas para satisfazer à curiosidade.
A família recebeu com serenidade sua partida, acho que em função da longevidade. Você, certamente, nem sequer conhece Pedro, mas pode imaginar que tenha existido um velho pai jovial. Porém, sabemos todos que é muito pouco comum que isso aconteça desse jeito.
Muita gente sonha ter a vida que teve o pai do Pedro, lúcido e saudável até o último minuto, com tanto tempo útil de vida. Ou seria tempo de vida útil? Ou nada disso! Será que o Cazuza foi mais feliz na sua vida breve?
Já se foram mais de 10 anos. Pedro cuida da esposa. Preocupa-se com as aventuras perigosas do filho, sobre as quais não tem gestão, mas proibiria se pudesse. Curte os netos, claro, fazendo-lhes todas as vontades. Hoje está com 80, pode viver até os 95, ou 119, quem sabe?
Eu já sei que vou morrer às 16:11 horas (não sei quantos segundos) do dia 09 de agosto de 2044, bebendo o último copo de suco alcoólico de cevada. Bebendo ou babando. Meu aniversário de 89 anos. Que festa!