Fantoches

Publicado na edição 002 do jornal O Estado do Rio

27-Ago-2005

O brinquedo era o Forte Apache. Os índios eram maus e deveriam ser dizimados. Os soldados representavam os "mocinhos" exterminadores de índios. Podia-se comprar peças avulsas, cavalos, índios e soldados, de vários formatos. A regra do jogo era clara, mas geralmente terminava em confusão porque ninguém gosta de perder, nem os índios! E nem de brincadeira. 

Nos últimos tempos, os americanos ditam a história da humanidade. Especificamente nesse velho capítulo, determinaram que os índios eram cruéis e mereciam ser esquartejados, sem piedade. Não contaram aos bobos que os índios, em dado momento, poderiam se tornar uma grande ameaça e este era o real motivo daquela matança quase inexplicável. Além do mais, eles já usavam piercings, embora ninguém soubesse que excentricidade era aquela. Até hoje não ligam o nome à pessoa. 

Isso já foi há muito tempo. Hoje não há definição, os índios se ramificaram entre traficantes, seqüestradores, canibais, enfim, nos elementos denominados como bandidos. Seus oponentes deveriam ser as polícias, mas não funciona bem desse jeito, muitas vezes os policiais são os maiores aliados dos bandidos. Em alguns casos, chegam a usar uniformes iguais, confundindo gente aterrorizada. No mais, temos governantes (que também podem ser bandidos) e os fantoches. Farmácia de manipulação.  

Essa fórmula, apesar dos fantoches, também poderia se tornar perigosa. Imaginaram que eventualmente seria possível acontecer uma guerra civil, sob o comando da Elk Mara Vila ou da Lílian Bife Quibe. Diante disso, resolveram investir em uma campanha maciça e convincente de desarmamento, por sinal muito desigual, afinal apenas os fantoches seriam capazes de se desarmar "espontaneamente". E, de fato, estão atendendo aos apelos já há algum tempo. Ou alguém acredita que seria possível a seguinte situação: "senhor traficante, queira, por gentileza, entregar todas as suas armas, porque estão proibidas em todo o território nacional", na esperança de serem atendidos os apelos prontamente? Então tá.

Este ano vai haver uma votação, como sempre obrigatória e contrariando os princípios da democracia. Dessa vez não se trata de escolher Fulano ou Beltrano para esse ou aquele posto, mas sim de uma posição estratégica sendo analisada pelo governo, uma questão de se medir a aceitação popular. Um referendo, para validação (ou não) de um texto de lei. O tema é: armas e munição, sim ou não? Quem pode perder com isso? Considerando que o voto eletrônico permite a identificação do eleitor, talvez seja melhor pensar bem em que resposta escolher, independente da sua verdadeira opinião. Essas são as halter nativas. E agora? Você vai votar na polícia, nos apaches, nos bandidos ou nos fantoches? 

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

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