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Apologia Reversa |
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10-Set-2005 |
Peço permissão aos cogumelos. Senti um certo desconforto ao ler a matéria da "Zona Franca" do dia 03 de setembro de 2005. Não porque fosse ruim, muito pelo contrário, mas por causa de uma apologia reversa.
Às vezes, mestre Erikson Miranda escreve palavras, penso eu, provenientes dos diálogos dos sonhos. Não entendo que propriedades teriam essas falas, quando sonho estou dormindo, quase nunca lembro do enredo depois que acordo. Mulheres disseram que eu falo nos pesadelos. Houve uma noite que acordei a vizinhança toda, claro, e a mim mesmo. Esse eu ainda tenho nítido: eu jogava futebol, era o ídolo, o artilheiro do time. Estava na cara do goleiro, final de campeonato, precisava marcar, chutei forte... Um puta bico na parede. Urrei de dor, mamãe Prista chegou ofegante, fraturei o dedão, as janelas do prédio se abriam e eu nem sei se fiz o diabo do gol. Depois desse episódio, por precaução, passei a manter a cama no centro do quarto.
Na minha adolescência, fora essa vontade demente de ser jogador do Fluminense, eu queria ser escritor e compositor. Claro, famoso, porque de nada adianta escrever e compor para as paredes. Assim como não é muito inteligente chutá-las.
Hoje, a frase "arte por amor à arte" parece-me política. Portanto, devemos sugerir a instauração de uma CPI para apurar se houve corrupção por parte dos artistas que trabalharam em troca de cachê.
Meu caro Erikson, a quem eu admiro, inclusive quanto aos sonhos, não se enfureça comigo! É no bom sentido, vou tentar explicar, logicamente caso você me permita tamanho ultraje.
A partir dos meus 12 anos, eu fazia "arte por amor à arte" e porque eu achava que faria bem às pessoas. Jovens estudam por amor à medicina, ao jornalismo, sonham ser advogados por amor às instituições, etc. e tal. Uma hora lá cai a ficha, todos percebem que precisam ganhar dinheiro. No meu caso, a família tratou de me enfurnar jovem nos escritórios, onde vivi mais de 25 anos, a maior parte desse tempo ganhando bem, porém infeliz e odiando o meu trabalho. Isso porque eles entendiam que o artista fosse sumariamente um vagabundo. Eu.
Durante todos esses anos continuei, paralelamente, fazendo "arte por amor à arte", porque eu tinha minha atividade "principal", que me remunerava e que me colocava socialmente aceito.
Num determinado momento, fiquei desempregado e as demais empresas entenderam que estou velho demais para o mercado. Não tenho currículo de artista porque sempre fiz "arte por amor à arte". E agora?
Atualmente temos muitos fazendo "arte por amor à arte". São os filhos dos artistas consagrados, são os filhos de gente rica cobrando quase nada e roubando o lugar dos que precisam trabalhar, tudo independente de qualidade. "Arte por amor à arte" passou a ser uma exploração bastante conveniente ao capitalismo, não há mais preço justo. Por conta dessas e de outras, o sucesso é um brinquedo publicitário, efêmero, alimentado pela ignorância e pela ganância.
O sentimento do músico, jornalista, enfim, do artista Erikson Miranda falou através de um sonho utópico de se fazer "arte por amor à arte".
O artista tem que ser reconhecido e remunerado. Precisa viver! Por amor, a gente beija a mulher, aconselha os filhos, visita um amigo no hospital. Também faz arte. Em parte. Em Marte. Enfarte!
Agradecendo ao aplauso! Um prato de cogumelos, com gorgonzola derretido, é uma delícia, sô! ´Té já!