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Pulga Atrás da Orelha |
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23-Mar-2002 |
Não se deve falar mal do carro de ninguém. Nem quem tem um carrão, nem quem tem um carrinho chulé. Principalmente eu, que não tenho nenhum. Mas permitam o deslize, vou falar sim. Na verdade, vou escrever.
Que me perdoem os fumantes. Certa vez ouvi um comentário de um fumante indignado: "os não-fumantes têm que entender que o direito deles de respirar termina quando começa o nosso de fumar!" Pura lógica. Então o bar era pequeno e fechado. Lá estava eu, com meu violão. Quando chegava em casa, até a cueca, meus peidos (respeitosamente, eu havia escrito "traques", mas poderiam não entender) e as meias fediam a cigarro. Não consegui cheirá-la, mas tenho certeza que a pleura também nadava no odor da nicotina. Tocava ali para ganhar uma merreca. Nos ensaios, eu experimentava várias máscaras, inclusive contra gás lacrimogêneo. Além de não ficarem bem em mim (ou, na certa, eu era que não ficava bem nelas), faziam-me ficar fanho, não saía bem a voz nas músicas. Desisti das máscaras e respirei muita fumaça, já cantava fazendo aquelas bolinhas pelo ar. Coisas malucas da profissão de músico.
Às pessoas que freqüentam determinadas fábricas, boxes de F1, pistas de aeroportos, pedreiras e cortiços costumam ser oferecidos apetrechos redutores de ruídos, que devem ser enfiados nas cavidades de ambas as orelhas, onde deveriam até caber. São incômodos. Na hora de enfiá-los, a gente tem a sensação de terem a largura de um hidrante! Mas realmente reduzem em muito o barulho infernal.
Lá vem o carro, a gente ouve de muito longe (tum-tum-tuntuntuntum), mas não dá tempo de fugir. Sabe-se que o motorista, por incrível que pareça, está dentro dele! Nem sequer é música, uma coisa assim tribal (tum-tum-tuntuntuntum), que ele gosta e não é egoísta, todos têm que ouvir. Mesmo se música fosse, o melhor maestro cravaria a batuta no próprio olho, de susto com os estrondos! Entenda-se por "olho" um desses que a gente usa para enxergar.
Não andamos por aí com aqueles apetrechos mencionados acima fincados nas orelhas, de forma que acabamos ficando com a pulga dentro dos tímpanos!