Algodão Doce

Publicado no Jornal Cachoeiras edição 323

26-Jan-2002

Hoje o Sol acordou pleno. Está frio à sombra, mas estou aqui aquecido, sentado no banco do motorista, parado no canto da estrada, aqui no centro de Cachoeiras, entre a prefeitura e o trevo pequeno. Logo atrás do carro há um quebra molas, que diminui o perigo de estar estacionado assim tão perto da curva. Afinal, por que insanidade alguém estaria escrevendo num lugar desses?

As montanhas estão descobertas, mostrando nítida toda a vegetação, com seus contornos absolutamente definidos contra o céu azul, todo esse cenário pintado de tanta luz. Todas descobertas, exceto uma que posso ver exatamente deste lugar, enquadrada na tela da minha visão como que pelo melhor fotógrafo. Não é a mais alta, nem a menor, mas neste momento é a mais garbosa! Nela parece que colocaram cuidadosamente uma camada quase estática de algodão doce, muito branco e formando uma tira esticada e perfeita, cobrindo apenas o topo desse corpo deitado da rocha. Estou por aqui há mais de uma hora. Andei a pé um pouco pra lá, ou para acolá, buscando o ângulo mais admirável da paisagem, olhando a perfeição zombeteira que o tempo aprontou pra já. Não me canso de admirá-la, mas as pessoas que passam olham para mim vislumbrando o louco. Logo eu, que sou tão equilibrado...

Escrevo agora já de casa. Percorri a estrada, procurando novos mirantes. Ora parecia um manto de espuma de creme de barbear. Ora parecia que haviam posto mais açúcar na geringonça, que preparava desvairada sempre mais algodão doce, derramando-o pelas encostas. De outro ponto, a natureza comia mais uma beirada desse algodão, desnudando novo seio da bela montanha.

De um momento para outro, tudo perdeu a graça. O céu mostrou-se guloso e sugava para si todo o algodão, já um tanto sujo, escondendo o sol e transformando um belo dia frio em chuva torrencial. Talvez tenha feito assim pelo prazer de regar as encostas das montanhas e pelo capricho de prepará-las novamente para o amanhã. Onde será que estaremos amanhã?

João Prista

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