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Vida de Vidro |
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26-Abr-2003 |
Escrito no dia inicial da guerra do golfo, enviado para o jornal em 19-Mar-2003.
Este nosso mundo me parece absurdo e eu sei que sofro de bobo que sou, porque os objetivos das pessoas ficam incompreensíveis diante do meu prisma contrário ao bom senso. Eles querem ouro, enquanto máquinas mastigam o nosso couro.
Quando eu tinha um cargo pomposo de gerente, em uma empresa de engenharia no Rio Bang City, recebia diariamente catálogos, folhetos, muito papel, a maioria da melhor qualidade. Estimo que 99% disso eu simplesmente jogava no lixo. Que resultado teríamos caso as estatísticas mostrassem quanto papel inútil é produzido no planeta? Então eu ficava melancólico, pensando nas árvores derrubadas para gerar esse tipo de coisa. Se soubessem dessas minhas idéias, nem os esquilos me achariam um cara normal.
Na passagem do ano a gente assiste aquela magnífica queima de fogos. Oh! Oh! Oh!!! E viva o turismo! Quanto custa aquele colorido todo iluminado no céu de meia noite? Talvez aquilo pareça mais espetacular do que um hipotético acidente na Fórmula 1, explodindo uns 10 carros e matando uns 6 pilotos, 4 fiscais, de uma vez só. Quantos famintos poderiam comer em troca desses gastos? Quem se importa?
Brigam no trânsito, nos rinques, no plenário. Velhos morrem solitários e doentes, sem qualquer assistência. Crianças aprendem o caos, ou apenas sobrevivem. Igrejas de diamantes estão se parindo! Há milênios já se foram os jardins da Babilônia. Vários animais e civilizações fazem parte da história da extinção. A gente fica com muito medo de quebrar, talvez possam acabar com essa vida de vidro. Nada pode mudar o desperdício. Nem a insanidade.
Pois fabricam bombas, armas químicas e de todas as formas. Tudo que pode destruir o pouco que sobrou de natural, ou de artificial. E gastam. Eis que surgem os loucos e resolvem usar um pouco disso na cabeça dos outros. O espírito destruidor não se importa com o que aconteça longe de si. A grande maioria, impotente, protesta sem voz. O jornalismo trabalha a todo vapor, alguns lá mesmo debaixo da chuva de mísseis, e vende-se mais propaganda.
Nesses casos, poderia existir a pena de morte sumária, exclusiva para ditadores. Ou que se enviasse todos esses cretinos favoráveis à guerra para Plutão. Nus. Sem combustível suficiente. Que diferença faria? Eles se matariam mesmo, uns aos outros, então seria melhor economizar. Sem Internet. Aquele que ficasse por último estaria entediado e seria bisbilhotado através de todas as TVs da galáxia, sem direito a discurso, até que a nave espacial começasse a falhar, para o delírio dos oprimidos. Mais um pouco vagando no espaço sideral e os 10 casais de ratos, colocados escondidos, já teriam procriado bastante e roído a caixa protetora...
Um banquete e tanto!