Viagem

Publicado na edição 449 do Cachoeiras Notícias

30-Jul-2005

Um banheiro, mais um compartimento para colocar coisas e duas camas, embora o casal apaixonado precisasse apenas de uma delas para que ambos pudessem curtir o balanço do trem. Escolheram a de baixo e ficaram durante alguns segundos admirados com o aproveitamento de espaço da minúscula cabine. Houve um grunhido de espanto, ou um comentário dele. Era a primeira vez que viajavam nesse tipo de veículo, tudo novidade. Começaram a brincadeira, logicamente nus, nem sequer se preocuparam de fechar a janela, afinal não sabiam que o comboio logo passaria em outras estações, para o deleite dos tarados da plataforma. E daí? 

O trajeto previsto seria de 9 horas, tendo a saída se dado à meia noite. Claro que não pretendiam dormir, apesar do balanço gostoso e da disponibilidade dos leitos. Vestiram-se (imaginaram que seria conveniente) e foram para o vagão-restaurante, tão logo terminaram a saliência aeróbica. Provavelmente fariam um escândalo, caso se recusassem a servi-los até que estivessem vencidos. Ali beberam, babaram, petiscaram, tomaram o café da manhã. No começo a paisagem era basicamente escuridão, mas houve o amanhecer paulatino e as surpresas do caminho. Tudo tão rápido, eles não queriam que terminasse o passeio, o que menos importava era chegar ao destino. 

A Estação da Luz parecia coisa de Paris, eles tinham certeza, embora jamais houvessem saído do Brasil. Não levavam bagagens, o objetivo único era aquela noite diferente. Dali saíram misturados na confusão de Sampa direto para a rodoviária, onde pegariam o ônibus de volta, no qual certamente dormiriam por exaustão.  

Ironicamente, 15 dias depois disso estavam separados, a paixão fora estrangulada por ciúmes, restara uma melancolia incompreensível e recordações. Foram-se muitos anos e nunca mais se viram. Talvez ele more em Maceió e ela em Charitas, mas é certo que não estiveram mais em trens interestaduais, muito menos em Paris.

Ela ouviu dizer que, no Japão, operários residentes longe do centro dormem em "gavetas" alugadas, onde o aproveitamento de espaço é magnífico, muito além daquele presenciado na cabine.

Ele encontrou um aproveitamento de espaço melhor ainda, surpreendente! Descobriu que 100 mil dólares cabem em uma cueca. Só não ficou muito claro se algumas notas entrariam em algum buraco, nem qual seria o tamanho da cueca... 

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

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