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Transversal do Orgasmo |
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20-Dez-2003 |
Meu pai era rotulado de estéril, ainda assim eu nasci, coisa de médicos. A história real seria muito mais movediça, mas vamos deixar só nisso mesmo. Mamãe era a amante fiel, mas eles não cuidavam de precauções, afinal não havia possibilidade de um estúpido improlífero ser o causador de um indesejável rebento. A sacanagem rolava solta, até intimidades impensáveis, como dedo na orelha.
Não me lembro daquela aventura gosmenta. Imagino que todos vocês, os que podem me ler, travaram uma batalha ferrenha para estarem onde estão. Eu não, apesar da ejaculação daquele cretino não ter a mínima propulsão, saí do saco e fui passando tranqüilamente à frente de um bocado ralo de espermatozóides aleijados, dementes e infecundos, até chegar sozinho no óvulo. Parecia que eu era o bandido livre e eles os policiais subornados, ninguém me interceptava. Eu ia capengando, na boa, a galera só olhando. Todos flagelados morreram muito antes do objetivo, onde, ainda assim, cheguei exausto e, de tão atrapalhado que sempre fui, quase não consegui entrar naquela coisa de outra galáxia, que eu não sabia o que era. Sem batalhas, tudo fácil demais, dava até para desconfiar. Não havia muito o que comemorar, exceto a vida.
Na década 50 a sociedade não admitia mulheres amantes (muito menos as solteiras) ou homens adúlteros. Mal sabiam que, já naquela época, a única coisa de alta fidelidade que existia era a vitrola. Assim mesmo, só algumas. Lá vinha eu, filho bastardo, o resultado da trepada proibida do saco murcho sobre a fêmea tola embasbacada pelo papo do canalha. Espermatozóide improvável. Impossível! Cagão.
Expuseram planos maquiavélicos, queriam que eu saísse por um aborto, ou virasse filho dos tios, do Xororó, ou viesse ser adotado por um casal de australianos heterossexuais, coisa rara. Talvez fosse até mais conveniente que eu morasse com esquimós, num iglu cercado de malditas renas. Socorro! A luta de uma mulher teimosa contrariou tudo isso e estou então aqui agora.
Não sei direito a minha história, todo esclarecimento que tive foi através dela. Quando ela contava entusiasmada, eu não prestava atenção; quando finalmente eu prestava atenção, ela não podia mais contar nada, só babava o travesseiro, às vezes vomitava na minha mão. Os que sabem da verdade estão todos esclerosados, assim como eu. Algumas palavras corriqueiras são incompreensíveis para mim: avós, pai, irmãos, família, ostelerofóides. Creio que todos foram substituídos por amigos, exceto os ostelerofóides.