Quase Esperança

Publicado no Cacheiras Notícias edição 277

28-Dez-2002
e
31-Dez-2002

Só porque é fim de ano. Feliz Natal! Feliz Ano Novo! Eu também desejo, claro, por que não? Aliás, desejo Feliz Todos os Dias! Pra todo mundo. Corrida às lojas. O balconista arrisca: “Dotô, a caixinha tá ali...”. Amigo oculto, inimigo declarado. Mais de 6113 maneiras de comemorar a farsa. Gastam milhões em queimas de fogos, enquanto outros morrem de fome, porque o espetáculo gera muito dinheiro fútil. Costumes. Cultural. 

Espalha-se a esperança de um ano novo melhor, porque este estava uma merda, né não? Quando vai ser? Há quanto tempo assistimos esse filme? Quase épico. Quase todos os povos festejando o “faz-de-conta”. Quase a indústria da ilusão, onde tratam de explorar um pouco mais os sentimentos dos desavisados. Quase outro Carnaval. Minha fantasia de jumento está guardada no sótão.

Planeja-se uma mudança de atitude, que acaba morrendo invariavelmente aos primeiros dias do ano seguinte. Porque ninguém é de ferro! Eu, por exemplo, pensei em perder uns 50 quilos, beber menos cervejas, ingerir comidas light, gastar 40 Reais em um corte de cabelo decente, parar de torcer por aquele time de bosta do Fluminense, mas já sei que nada disso vai acontecer. Foi apenas um pesadelo!

A gula faz parte prioritária dos festejos. O coitado do peru morre de véspera, mas continua duro. Há que se importar iguarias, exportar imagens, confundir o desejo na vitrine. O champanha vive o seu momento de glória. Os bêbados sabem melhor que ninguém gargalhar!

Todos planejam janeiro. O quase falido prepara a fuga para a Suíça. O quase gay vai ter um caso isolado na madrugada do réveillon com um boneco inflável dotado de 25 cm de vibrador. O quase famoso vai mudar o repertório. O quase viciado vai se desintoxicar. E 2002 está quase estrebuchando, antes de morrer sem deixar saudades.

O importante é vender o show. A virada na praia, os artistas, as luzes, a multidão espalhando suas crenças. Tudo foi minuciosamente organizado, não pode falhar.

O brasileiro sempre encontra força para esbanjar felicidade, no futebol, em Salvador, em Olinda, no Rio de Janeiro, na sacanagem. No calendário, só porque é fim de ano. O brasileiro é quase uma hiena. Este ano há uma expectativa a mais: será que Lula vai governar para o polvo?

 

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

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