Ponte Aérea

08-Nov-2003

O ônibus sai do Castelo às 18:10 hs. direto para Friburgo, sem passar pela Rodoviária Novo Rio. Mentira, nunca sai na hora certa, depende da quantidade de encrencas. Nesse dia até que saiu cedo, às 18:25 hs. O engarrafamento de sexta-feira é sempre federal. A agonia dos passageiros deflagra o espetáculo dos telefones celulares. Uns são discretos, outros berram, feito a perua da poltrona 22. 

Ligação no 1. "Cláudia? Acho que não vai dar tempo da gente ir no baile. O trânsito está parado. (...) Não, hoje está muito pior. (...) Tenho certeza, são 19:40 hs. e a gente ainda nem chegou no meio da Perimetral. (...) Sei lá, liga a TV e dá uma olhadinha se o jornal diz alguma coisa, deve haver um dinossauro lá no vão central, um mamute, ou uma plantação de maconha... 

Ligação no 2, 19:45 hs. "O QUE? Um sujeito quer se jogar da ponte? Tá brincando, fala sério! (...) Eu não acredito, ele tá lá desd´as 5? Esse idiota não tem mais o que fazer? Resolve se suicidar logo na sexta-feira, no final da tarde! E pára a cidade toda por causa disso? Cara egoísta! Ninguém dá um jeito de jogar esse imbecil dentro d´água de uma vez?

Ligação no 3, às 19:55 hs. "Mãe? Eu ainda estou aqui na Perimetral, o trânsito está completamente parado. Parece que tem um demente querendo se suicidar da Ponte e não conseguem tirar o estúpido de lá. Liga aí o jornal..."

Ligação no 4, às 20:10 hs. "Reservas? (...) Pois é, eu quero reservar o vôo Rio-Recife-Rio. Dia 28 de dezembro (...)" 

Vários passageiros já estavam na cabine do motorista, gritando pela única janela possível de se abrir:

- Biscoito! Ei, biscoito! Me dá 5 de sal. Ei, Coca-Cola! Uma água também... 

- Ei, moço, aproveita e vê se passa alguém aí vendendo sorvete... 

Ligação no 11, às 20:44 hs. "Pois é, Cláudia, isso aqui já virou um piquenique. Ninguém merece, o cara não se joga e a gente não sai do lugar. Acho que eu também vou me suicidar..." 

Ao contrário do costumeiro, o veículo não tinha banheiro. Começaram a descer para fazer o xixi panorâmico, mas também havia o cavalheiro da poltrona 37, que queria fazer cocô. Oh, céus! 

Ligação no 14. "Mãe! Um coroa se cagou. Ninguém mais consegue respirar por aqui. Os ônibus deveriam ser, obrigatoriamente, equipados com máscaras, que despencassem do teto, como nos aviões, em todas as situações emergenciais. Alguma notícia do suicida? Esse desgraçado está fazendo merda até por cu alheio! Usou aqui o pobre velho..."  

Ligação no 16. "Cláudia! As pessoas começaram a se rebelar. Na camionete ao lado, acho que está o irmão gêmeo do Supla. Sei lá, o cabelo é cor de rosa, verde e lilás, aquele traje característico preto, cheio de metais prateados, tatuagens e uns 60 piercings, não dá pra contar. Ele está andando de skate no teto da perua! Agora pulou pra mureta do elevado, manobra radical. Ih, acho que o cara caiu lá embaixo... Tá dando confusão, parece que ele não pagou o vendedor do biscoito..." 

Ligação no 19, às 21:08 hs. "Não, amor, eu juro que é verdade, eu ainda estou na Perimetral, quer falar com o motorista?" 

Ligação no 20. "Mãe! Pelo odor que rola por aqui, muita gente já deve ter se cagado sem fazer propaganda, não é possível que o coroa seja tão poderoso! Nesse carro equipado com o maldito ar condicionado não há como abrir a porra da janela! Ih, mãe, tem algo pastoso aqui na minha poltrona, bem debaixo de mim..." 

Ligação no 24. "Resolveram fumar. Tá um fumacê do cacete, não se vê nada. Levei uns 5 minutos para achar o celular. Tinha de tudo dentro da bolsa, encontrei até a dentadura que eu roubei ontem do meu avô. Estou tendo uma crise de asma. Por que esse filho da puta não se suicida logo?"     

Ligação no 26, às 21:44 hs. "O canalha pulou? O que? Desistiu de pular? Fala mais alto! Quem se jogou foi o psiquiatra? Alô! Alô! Alô! Droga, acabou a bateria..."

João Prista

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