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Nossos Velhinhos |
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03-Mai-2003 |
Mamãe Prista, uma velhinha entrevada de 86 anos, não vê TV porque está cega. Na verdade sabe que está ligada e fica mais ou menos naquela direção devido à luminosidade, que ela ainda distingue um pouco, às vezes. Eu praticamente não vejo TV porque não gosto, mas escuto porque ela é quase surda! Mesmo quando eu lacro as portas e janelas dos meus aposentos, amarro 6 almofadões em volta das minhas orelhas, mergulho a cabeça dentro do aquário e ponho 2 ratoeiras nos colhões (para desviar minha atenção), continuo sabendo o que se passa na telinha.
No quiosque eu vejo TV porque existe em toda parte. Esta afirmativa não é válida se houver uma moça bonita de saia e com as pernas cruzadas à minha frente, acontecimento que me faz cair da cadeira e passar vergonha. Não ouço absolutamente nada que vem da emissora porque o som das outras caixas (chamam aquilo de música!) é estridente, acho que parece um pouco com turbina de boing! Talvez sejam surdos. A moça bonita olha para mim e não sabe se estou anestesiado, dormindo ou acordado, ou apenas contando baratas. Emite uma cara incrédula de espanto qualquer. Então eu bebo, porque cerveja não faz barulho, só na hora do xixi.
Mamãe Prista, uma velhinha entrevada de 86 anos, já foi moça bonita. Na época dela não adiantava muito cruzar as pernas porque as saias eram enormes, dariam para esconder tanques de guerra. Em compensação os homens se excitavam caso vissem panturrilhas! Ela agora baba no lençol e caga nas fraldas. Também não consegue mais cruzar as pernas, sábia natureza. Não sei se sonha com o Raul Gil ou com uma torta de chocolate, quando flagro aquela cara de tarada que ela faz. E luta contra a morte, meio que sem saber que prazeres ainda lhe restaram. Sem dúvida, uma lição de vida, para quem puder vê-la. Mas é lamentável assistir alguém definhar. Ela está triste e infeliz, dói e gasta os últimos sopros de energia em absolutamente nada. E todos nós pagamos por isso.
A falta de recursos leva nossos velhinhos à morte, ao abandono, a doenças tratáveis que se agravam impotentes. Parentes não conseguem comprar fraldas, remédios e mão de obra benevolente. Uns não podem, outros não querem. Não se dispensa aos idosos dependentes a aplicação que se dá a outros problemas sociais igualmente carentes. Como se fossem marginais, a escória!
Então eu toco violão para Mamãe Prista, que é minha única fã, coitada! Só músicas minhas. Ela canta, bate palmas, cospe, peida, não necessariamente nessa ordem. Às vezes nem dá tempo de cantar ou de bater palmas. Solto a voz, com todas as minhas forças. Sinto-me pleno. Mentira, fico doente, relembrando como era. Meu psiquiatra garante que eu sou normal e posso andar pelas ruas...
...desde que vista aquela camisa branca do hospício...