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Mudança de Hábitos |
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09-Nov-2002 |
Vim da cidade grande, onde eu morava num apartamento, de frente pros fundos, no morro. Era possível ouvir balas perdidas todas as noites. Na verdade, algumas pessoas diziam assim, que eram balas perdidas, mas continuo vivo porque nunca as perguntei para qual direção estariam indo, não era da minha conta e eu não pretendia ajudá-las. Ou, talvez, porque as granadas não caíram na minha cabeça, nem perto demais. Os prédios de lá são geralmente altos, sendo que uma vez subi no vigésimo andar e eu sofro daquela fobia que a gente sente uma vontade irresistível de se atirar. Sorte que eu usava sempre suspensórios e fiquei pendurado preso na samambaia, esticando até chegar na varanda de baixo, onde acontecia uma seção de sexo grupal. Ninguém percebeu-me passar de fininho. Acho que eu, assim com esse corpinho, não era bem o tipo deles. O caso é que acabei sentindo certo alívio, quando cheguei aqui, porque descobri que só sinto tal medo do elevador panorâmico. Ninguém entende, já dei umas cinco cabeçadas nas paredes dele. Costumo me justificar que é porque “a testa está coçando”. Do jeito que me olham, parece que não acreditam muito em mim.
Outra coisa que eu percebi no interiorrrr é que o prefeito anda livremente nas ruas. Cometendo um ultraje, pode-se até conversar um pouco com ele, mesmo na hora do almoço. Lá na cidade grande a gente não gosta do prefeito, tanto pelo que ele faz, quanto pelo que não faz, mas o máximo que se consegue transgredir, ao vê-lo e durante um ataque histérico de fúria, é quebrar o aparelho de TV, ou comer o controle remoto.
Os ônibus de lá circulam durante toda a madrugada, porém quem os espera no ponto é assaltado. É fácil encontrar bares e diversão a qualquer hora, mas os preços são exorbitantes. Engarrafamentos inigualáveis! E aquele ar poluído? Ah, tem dias que dá até pra pegar...
Nem sempre foi assim. Recordo que, na minha infância, época dos Pitecantropus Erectus ou Homens de Neanderthal (desculpe, às vezes, falha-me um pouco a memória), era possível caminhar pelas ruas com tranqüilidade, às 3, 4, 5 da manhã...
Vim da cidade grande sim. Saudade daquilo? Nenhuma. Agora moro numa casa de fundos pro rio. Mas é no bom sentido...