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Manequins Abstratos |
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09-Jan-2004 |
Na troca de ano, é praxe que se faça uma avaliação, quando se compara esse marco. Invariavelmente, o ano que se termina foi pior do que o anterior a ele. Mas isso é matematicamente previsível: o planeta tem mais habitantes, que consomem mais recursos, que não cabem, que sofrem, que estão bêbados, que não lembram como foi o ano mais antigo.
Se aumentou a população, nasceram muito mais pobres do que ricos. Obviamente, a riqueza fica com poucos ricos e os muitos miseráveis que nasceram vão berrar no nada, no estádio de futebol e na violência. O mundo todo é capitalista, em alguns lugares com cara democrata, ou com cara comunista, ou com cara Real. Que diferença faz?
Nas escolas, professores idealistas continuam educando, de acordo com os melhores princípios. Recebem, de recompensa, o carinho de jovens ingênuos, que vão se tornar presas desse sistema de praticidade abusiva. Muitos desses jovens amanhã serão cretinos da oportunidade, por mais que tenham tido bandeiras, outrora, honrosas. Assim o futuro vem chegando cruel e ninguém percebe o que ocorre.
Os foguetes saúdam o Ano Novo, que vai ser pior do que esse que se encerra. O espetáculo é realmente fabuloso, o turismo agradece, muitos conseguem trabalho temporário e o dinheiro circula sempre nos mesmos cofres: os que têm gastam e outros que têm arrecadam. Os que não têm apenas olham e fazem pedidos absurdos aos milhões de estrelas cadentes.
As praias ficam lotadas, porque as pessoas não podem perder o último e nem o primeiro engarrafamento do ano, seja ele qual for. As crenças se misturam ao caos. As crianças também. Os adultos da areia querem esquecer as dívidas. Os adúlteros querem esquecer as dúvidas. Os macumbeiros evocam as dádivas. Os homens das varandas milionárias gostariam de fazer xixi nessa gente toda.
É uma grande festa! O ser humano roga por essa dose de ilusão. Não se sabe o preço de nada do que está acontecendo. Uma vitrine de manequins abstratos, que planejam nos convencer sobre a vida maravilhosa em Marte, logo depois da morte. A maioria deles aparece na TV, ou nas igrejas, ou no congresso, ou nas guerrilhas, ou nos jornais. Descrevem, minuciosamente, a esperança de cada qual. Sentem-se exaustos, porque precisam inovar toda hora, para que possam levar a plebe na conversa.
Já existe muita desconfiança na frase "Feliz Ano Novo", em beijos, em abraços e talvez o Cauby seja boiola...