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Juízo Final |
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25-Jun-2005 |
Tenho 11 minutos de vida. Não há mais tempo para nada. Aquela gatinha, que eu queria encontrar, não aconteceu. Não fiquei rico, não reconheceram meu projeto espacial. Nada pelo que eu possa ser lembrado. Minha filha mais velha está grávida e não vou conhecer meu neto. Por que só 10 minutos de vida? Não haveria tempo nem para jogar uma partida de xadrez! Seria ótimo, mesmo considerando que eu detesto jogar xadrez...
Hoje é dia de decisão do Campeonato Brasileiro. Faz 25 anos que o Fluminense não ganha um título de nada, mas desta vez só precisa de um empate. Está passando na TV, embora eu não possa assistir. Nem estarei vivo ao final. Creio que o
segundo tempo começou agora, há uns 5 minutos. Estava perdendo de 1 a 0, entretanto o adversário tinha 2 jogadores a menos, que foram expulsos. Finalmente um juiz nos ajudando! Até 4 pênaltis a nosso favor ele já havia marcado, pena que perdemos todos. Não vou saber o resultado. Ou será que de lá a gente pode dar uma espiadinha?
7 minutos. Já sei que não vou morrer de câncer, nem de leptospirose, sequer de bala perdida ou direcionada. Tão pouco tempo! Eu queria deixar testamento (meus livros, meus discos, a coleção de canetas vazias), falar com minhas filhas, com os amigos, comer rabada com pimenta, passar a noite num bordel e depois passar o dia numa fila do INSS até ser atendido, ou esperar pela aposentadoria. Queria trocar um pneu furado, eu levo horas para trocar um pneu furado! Gostaria até de voar em um avião lotado, com o piloto drogado... Morreríamos todos juntos.
É verdade, eu fui meio mau. Sacanagem, a velha cega e eu colocar aquela ratoeira onde vovó costumava pousar a dentadura! E o dia que eu pus um caranguejo vivo na sopa da sogra? Foi legal, ela ficou tão desesperada que pulou pela janela, coitada! Teve também aquele "acidente", que eu "escorreguei" meu chefe pela escada e ele se quebrou todo, mas não dá para ficar lembrando de tudo em apenas 4 minutos. Também já não me divirto tanto com essas coisas pequenas.
Em 2 minutos tudo estará acabado. Não haverá velório, nem enterro. Talvez alguém chore, quem sabe um camelo ou uma lagartixa... Não vão encontrar nada de mim.
O relógio nunca para. Falta 1 minuto. Lá vem ele, o maldito trem não está atrasado. Não há como sair deste carro trancado sobre a linha, estando eu amarrado e amordaçado do jeito que estou. Impossível um descarrilamento. Não sou religioso, mas cadê o padre? Diabo, cadê o padre? Mamãe! Falta...