Irreflexão

Publicado no jornal Cachoeiras Notícias edição 298

15-Mar-2003

Ele recebeu no trabalho uma carta anônima, com os dizeres: "sua mulher está doida para dar pra qualquer um". Não pode ser! Isso não é verdade. Não comigo. Só pode ser um babaca querendo me sacanear. Ela é fiel, claro que é. O mundo desabou, assim mesmo. Ou será que é possível?

Passou a vigiar tudo, a cruzada de pernas, apalpava para se certificar se ela estava de calcinha. Procurava ângulos para saber se os seios estavam aparentes. Ligava para casa vinte vezes por dia. Interrogou o zelador do prédio: quem entrega as cartas? E o pão? Ela pede pizzas? Quanto tempo demoram? Já ficou presa no elevador?

A segunda carta dizia: "ela já deu para quatro". Não pode ser! Isso é intriga. Eu não acredito. Quem poderia ser? Eu trepo com aquela vaca quase todos os dias, não deixo faltar sexo, ela finge que gosta. Não, isso é delírio! Preciso contratar um detetive.

Na terceira carta estava escrito: "você gosta mesmo de ser corno, comi sua mulher!" Não pode ser! Controle-se, é só provocação. Nos últimos meses ninguém esteve sozinho com ela, não comigo por perto. Ou será que enquanto eu venho trabalhar... E os telefonemas? Ela atende todos. Vou instalar algumas câmeras lá em casa.

A quarta carta continha as palavras: "todos já sabem, menos você, sua mulher é uma vadia". Se for verdade, vou matar! Todos, o zelador, o padeiro, o carteiro e o maldito entregador de pizzas. O vigia noturno, o vizinho e aquele veadinho que finge que não gosta de fêmea. Vou dar um tiro no detetive!

A quinta carta... Cadê a quinta carta? Por que não aparece? Será que estão todos me gozando? Meu melhor amigo está trepando com ela? Tenho certeza, até minha mãe está escondendo isso de mim. Por que não vem logo a quinta carta? O boy, ele também sabe, por isso não me entrega a correspondência.

Suicidou-se.

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

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