Genetlíaco

Publicado no Cachoeiras Notícias edição 239

14-Ago-2002

Sexta-feira. Era aniversário, mas ninguém sabia. Os que sabiam não se lembraram, portanto não sabiam. João pegou o telefone e ligou aos mais chegados, e puxou conversa, e deu um jeito de perguntar: “você sabe que dia é hoje?” Respondiam simplesmente “sexta-feira”. João passou a entender que “os mais chegados” seriam “os mais idos”. 

Há um ritual no trabalho de João. Trata-se de uma “surpresa” aos aniversariantes. No meio da tarde, fingem que nada está havendo e convocam a pessoa que comemora seu genetlíaco a uma sala qualquer, onde já estão todos de tocaia, armados de bolo e refrigerantes. De véspera, na quinta-feira, João estava com receio que isso pudesse lhe acontecer, porque ele não gosta de festa de aniversário, nem de bolo e só bebe refrigerante se for light ou diet, que não comprariam. Odeia aquela maldita cantiga idiota! Por que parabéns pra você? Mas a algazarra temerosa não aconteceu. João é novato na empresa, era sexta-feira, aniversário, mas ninguém sabia.

Qual a razão dessa melancolia infundada? Há muito tempo João não curte saber que ficou um ano mais velho! Por que razão os outros iriam festejar? João não é mais casado, as filhas moram longe, os amigos estão todos ocupados. João sentiu saudades da mãe, que já se foi, ela certamente não se esqueceria. Tudo bobagem, era um dia igual a tantos outros, fez sol, ninguém estava doente, mas a volta leviana para casa teve sabor de confusão mental, sem que ele soubesse por que.

Pensamentos revoltos. Nenhuma agenda eletrônica havia funcionado! Já não era hora de sol, sábado estava quase por chegar. A mesa do bar trabalhava de ponto de apoio e o celular continuava absolutamente mudo. Pintou uma vontade de roubar brigadeiros, enfiar o dedo no glacê ou estourar balões, correr entre as pessoas soprando um apito infernal ou a língua de sogra. João conversava por dentro, perguntas e respostas sem respostas. Movia apenas os olhos, sem perceber. Solidão. Veio uma força enorme, para uma tremenda gargalhada histérica! Surtou. Ê, João, dessa vez o presente de aniversário acabou sendo uma camisa de força...

 

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