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Garimpôncio |
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16-Nov-2002 |
Minha mãe era preta. Meu pai também. Pretos, negros de verdade, daqueles que chegam a brilhar. Quando eu nasci, branco desse jeito, prontamente me esconderam dentro do armário.
- Cadê o menino? Eu sei que já nasceu, estou ouvindo o choro...
- Eu num tô ouvindo nada não.
- Tá vindo daquele armário!
- Bobagem, Almeida, onde já se viu um menino dentro do armário?
- É dali mesmo, eu quero ver... – e ficou furioso, aos berros! - QUE BRANQUELA É ESSE AQUI?
Fui parido no casarão, a “bá” que fez o parto, de maneira que não havia possibilidade de troca. E foi assim que eu tomei a primeira série de porradas. Fiquei roxo e, com a nova coloração, conseguiram acalmar meu pai. Acabei sendo registrado somente dois anos depois disso. De castigo, puseram meu nome de Garimpôncio Astrógedo! Meu padrinho Zé Neto, otimista, dizia que isso seria um ótimo nome de jogador de futebol. Minha irmãzinha, branca também, recebeu a graça de Anarégida Lolôncia. Pra facilitar a carreira de modelo.
Esse entregador de pizzas, muito gentil, já velhinho, coitado!, continua fazendo cortesia pra mamãe até hoje. Sei não, mas acho que foi por isso que eu fiquei com aquele apelido de "farinha de trigo"...
Casei com uma branca, daquelas quase transparentes. Retire-se o “quase”. Podia-se ver-lhe as veias azuis, através da pele. Meu filho nasceu preto! Assim instintivamente, escondi o menino dentro do armário. Engraçado, eu tive uma nítida impressão de que alguém o havia seguro no colo, dentro do armário. Estranho! Abri rapidamente a porta e lá estava ele, não aquele velho que nos atendia, quando eu era guri, mas o nosso entregador de pizzas de agora. Esse, logicamente, preto. Exceto os dentes.
Enviei uma tese de mestrado para a Universidade de Oxford sugerindo que incluam nos estudos de genética a especificação da cor do entregador de pizzas...