Forasteiro

Publicado no jornal Cachoeiras Notícias edição 358

29-Nov-2003

Continentes? Países? Estados? Cidades? Bairros? Condomínios? Tribos? Por que tantos idiomas? Pra que tantas fronteiras? Que diferença faz o lugar? E por que será que alguns nativos acham que são donos do lugar? Onde? 

E todos que se mudam de lugar acabam forasteiros, hostilizados por sentimentos incompreensíveis. Em segredo, sentem-se como se fossem argentinos. O sujeito recém chegado tenta se habituar aos bons costumes, se esforça, exercita boas maneiras, cordialidade, participa do folclore, nada adianta, continua sendo forasteiro, por mais tempo que passe na história. Um dia lá, sem querer, pisa o calo de alguém e alguma voz autoritária relembra: "você nem é daqui, nasceu em Itacaquecetuba!" Ou em Jerusalém.

Imigrantes, emigrantes, foragidos, forasteiros. As pessoas buscam um lugar melhor, acreditam em mudança. Quiçá. Já os famosos, os notórios, são bem vindos em qualquer lugar, mas estes já não precisam disso. Nem sequer escolhem lugares por simpatia pessoal, geralmente por comodidade, porque Carmem Leda mora perto, ou porque Las Vegas. Não são forasteiros, porque são notórios, são carinhosamente acolhidos, recebem o honorário título de cidadão. Aqueles que precisam de receptividade saíram de algum lugar porque as portas estavam fechadas e encontraram outras portas fechadas. Na verdade, muito mais portas fechadas, porque todo recomeço é cruel. Entendem que é preciso abri-las e a luta torna-se um pouco ingrata. Muitos desistem e tornam-se nômades.

Uma casa nova, novos vizinhos, outra vida, incerteza, busca frenética. Planos, muitos planos, que dependem de cada passo que se possa evoluir nessa corajosa empreitada. Resultados e decepções. Espera. Tudo é imprevisível. O andarilho sempre se sente perto da porta dos fundos, como se, a qualquer momento, fosse preciso fugir novamente. Essa angústia carente de continuidade pode levá-lo a decisões desvairadas. Ou ao Alasca.

Depois de muitos anos, as coisas não mudam o bastante. O forasteiro continua precisando de notoriedade. No mínimo, 1 beijo, 3 amigos, 1 médico e 1 cadeira de rodas. Claro que muitos habitantes do lugar já se mostram flexíveis e que a vida parece quase normal. Mas sempre haverá um cheiro de forasteiro no ar...

Acesso direto à página principal de músicas - composições de João Prista

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