Dinossauro Conversível

Publicado na edição 447 do Cachoeiras Notícias

16-Jul-2005

Eu escrevia nas cavernas. Ninguém lia. Mais ou menos como agora. Não havia computador, o que agravava bastante o esforço de produzir um texto, sem contar que não ficava portátil. Eu era muito tímido, mais ou menos como agora. Não usava tacape porque nunca acreditei em violência. Apesar de imaginar que transar com uma mulher "desligada" talvez tenha lá seus atrativos até hoje. Não conheço outro método natural para se calar uma dama. Um drama! Ainda assim, nada de porrada. Ninguém entendia o meu idioma, mais ou menos como agora. 

Não conseguia divulgar meu trabalho, afinal a mídia nunca apareceu em cavernas procurando trogloditas. Todas aquelas mulheres que eu pretendia também não freqüentavam meu leito, mais ou menos como agora. Eu fazia planos, sonhava com o sucesso e um dinossauro conversível, na verdade uma Ferrari, que eu não sabia o que era. Não escrevia cartas, porque não havia correio que levasse a maldita parede da caverna. Mais ou menos como agora. 

Aprendi a tocar música. Levava meu próprio som e compunha com pedras. Por falta de métodos e de escola, tocava de ouvido, o que me deixava sempre com uma certa dor de cabeça. Não sabia absolutamente nada de teoria, mais ou menos como agora. Imaginava um show perfeito, com repertório impecável, todos os detalhes estudados, super produção, mas não aparecia o patrocínio ou quem acreditasse. Mais ou menos como agora.  

Quando eu precisava de amigos, não sabia onde diabos poderia encontrá-los. Não havia telefone, ônibus, táxi ou avião. E o preço disso tudo seria um absurdo, mais ou menos como agora. Eu falava com as paredes da caverna, que me respondiam em eco. Estúpidas, sem qualquer indício de inteligência ou criatividade, repetiam apenas tudo que eu dizia. A loucura tomava conta de mim e geria minha vida, mais ou menos como agora.

Como todo ser pré-histórico, eu era caçador. Atrapalhado a tal ponto que, a qualquer momento, a caça poderia me comer, mas seria no bom sentido, logicamente. Era muito difícil de me alimentar, porque tudo que eu gostava de comer me faria mal. Não me importava porque não havia medicina competente. E colesterol é o cacete! Mais ou menos como agora.

Eu queria tocar sentimentos das pessoas, gastava horas da minha vida esculpindo palavras incompreensíveis na única tela disponível, a parede da caverna. Sabia que eu era um pequeno sonhador, que seria difícil ver meu valor reconhecido, mais ou menos como agora. 

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