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Dinda |
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04-Out-2003 |
Minha madrinha era rica. Recordo coisas estranhas, como uma vitrola automática de móvel e uma maldita caixinha de músicas, que a gente dava corda, levantava a tampa e saía um blim-blim repetitivo, de uma criatividade absolutamente questionável. Aquilo, pasmo ao confessar, era minha recompensa quando me despedia da velha: eu gostava! Não só gostava, como ficava aguardando o momento estúpido de ouvir aquela musiquinha infernal. O que será que não faziam as madrinhas de antigamente pelos seus afilhadinhos idiotas? As de hoje, se é que ainda existem, diriam: "não enche o saco, guri!"
O nome dela era Aída. Vejo-me aqui paradoxal escrevendo a volta de Aída, que absurdo! A volta de Aída às minhas lembranças. Ela me parecia muito velha! Para que se tenha idéia, Mamãe Prista pariu esta desgraça que vos escreve esta coluna aos 40 anos de idade e dindinha (não estranhem, não é coisa de boiola, era assim mesmo que se chamava a madrinha naquela antiguidade: din-di-nha, eu hem!) foi professora primária de Mamãe Prista. Quando ela falava, a falta de lubrificação natural, se é que me entendem, fazia ranger os dentes. Chamava-me de “Joãozinho”. E eu não gostava. “Joãozinho é o cacete!”, eu pensava, mas nunca dizia. Havia respeito. Ela fazia-me todas as vontades, se bem me lembro. Não, eu ainda não queria nada de transa naquela época, a natureza era sábia. Ou sóbria, sei lá. Eu ficaria enroscado nas teias de aranha, muito antes
do orgasmo. Isso sem falar na baba e no sexo oral com a dentadura...
Aída era muito altiva e vaidosa, mas só até a morte do meu padrinho João. Engraçado, este ela não chamava de Joãozinho, era uma merda ser criança. O avião caiu no mar, nunca acharam o corpo dele. Não sei se tem alguma relação, mas eu tenho pavor de voar, com ou sem avião. Ficou gravado apenas seu rosto e que ele me comprava jujubas depois do almoço. Ela definhou, depois da tragédia. O amor era lindo!
A última imagem dela vem de uma visita minha ao hospital, ela em pele e osso. Triste. Mas ficaram boas histórias. Dindinha, já quando eu tinha uns 15 anos, foi meu "cupido" com Elizabeth, esta é a principal recordação. Não deu muito certo, o romance não continuou, mas foi uma ótima e gostosa tentativa. Ah, namorar era sublime! Eu era atrapalhado, acho que meu beijo tinha uma base de sucção, narigada ou lambida, já não sei descrever.
Se não fui um bom afilhado, a culpa vem daquele quadro de múltiplas faces minhas, de topete, com jeito de garotinho paspalho, que ficava pendurado na parede da sala e que ela dera de presente. Todos riam daquilo e gozavam minha cara. Os costumes mudam e as desculpas também. Eu juro que o nosso problema foi o quadro!
Aída era rica. Não tinha filhos, nem parentes. Percebe-se que não fiz parte da herança, sou um duro. Minha madrinha sabia que eu, maldosamente e pelas costas, a chamava de velha. A vingança seria deixar nada para mim. Por isso não ganhei nem a caixinha de música, que certamente, no meu estágio atual de insanidade, eu já teria estraçalhado contra alguma parede inocente. Ninguém sabe disso, mas ter sido banido daquela herança é o verdadeiro motivo pelo qual eu vim morar no interiorrrrr. Ela deixou toda aquela fortuna para dois esquilos, um javali e uma hiena, que moram no jardim zoológico da Patagônia! Uns herdam, outros merdam.