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Carnaval |
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08-Mar-2003 |
É hora de camuflar todos os problemas, seja lá de que jeito for. Os enrustidos se vestem de fêmeas, os magnatas se vestem de camarote, as vagabas se vestem de escola de samba e os escritores... Ora, os escritores escrevem bobagens, como fazem o ano todo. São isentos de lantejoulas. Os motoristas e trocadores se vestem de ônibus e os garçons se vestem de bar. Vida cruel! Os bêbados bebem, HIC! Quem se importa como estejam vestidos?
A passarela mostra um mundo que só existe no Rio de Janeiro. O preto e o branco, os nem tanto, a bicha desvairada, o jogador do Fluminense, milhares de fofoqueiras, até paulista, todos misturam sorrisos na avenida. O estivador tarado pode desfilar a poucos metros da atriz famosa, vendo-a nua sobre o carro alegórico. Ele vai estrebuchar, tropeçar no tesão e disfarçar, talvez se masturbando, pra platéia não perceber. É o mico plenamente justificável.
A gente da TV trabalha à exaustão para registrar o evento, que invade lares espalhados pelo planeta. Os que competem e os que se divertem só querem se acabar, no melhor dos sentidos. A beleza das alegorias se confunde com luzes e os efeitos da imaginação viajante do carnavalesco. Um júri atento, ou comprado, ou arrogante, ou vazio, observa os movimentos programados. Todos aguardam a apuração!
Outrora, havia glamour no concurso de fantasias, no baile de gala, o carnaval de rua era exibido a noite toda. Confetes e serpentinas. As pessoas estavam concentradas nos bairros repletos de essência de povo, ou entre o trânsito engarrafado pelos bondes, e a mídia daquela época achava que tudo isso era interessante. Hoje não é. Não registram mais. Somente no Nordeste, por causa advento dos "Carros Elétricos de Zilhões de Watts" e da Ivete Sem Galo. O espírito voyeur só pode ser saciado no Pay-Per-View, pra não atrapalhar a audiência do Big Brother no canal aberto. Ou mais tarde, nas bancas de jornais.
Mas essa comemoração toda ainda serve para se esquecer que os juros são absurdos, que a corrupção derruba qualquer planejamento, que a guerra de lá do outro hemisfério está por acontecer, que os discursos mudaram depois das eleições, que incendiaram a cidade nos últimos dias.
Proponho um brinde especial à esperança, que andou exuberante por ocasião das últimas urnas, em 2002, e hoje está agonizante nas dívidas financeiras e morais de todos os brasileiros! Pois que volte logo, porém lúcida. Acho que já chega, né não? Ou alguém aí agüenta mais? Surdo e tamborim. Vamos cantar. Saúde!