Anelando o Veto

Publicado no Cacheiras Notícias edição 245

04-Set-2002

Talvez ela tenha comido um walkman. Antigamente, as pessoas que falavam muito recebiam a fama de terem “engolido a vitrola”. Dado o tamanho comparativo dos aparelhos, percebe-se que a vida moderna é muito mais confortável. Não se tem notícia que esse tipo de ingestão siga o fluxo tradicional dos alimentos. Digo isso porque os tagarelas jamais param de discursar. Imagino, pois, que nem tudo que entra sai. Isso é uma dádiva, convenhamos que seria extremamente complicada tal saída. Comigo não, quem quiser questionar a entrada, que reclame com os mais antigos, foram eles que criaram a lenda. 

Ela fala de política, de futebol, de histórias da cidade, dos nativos, sobretudo de si mesma. Interessante, mas vou me ater à evolução dos eletrodomésticos. Minto, vou pular essa parte, porque não caberia nesta coluna. Vamos comentar então o voto eletrônico.

Você já pensou a respeito disso? Ao incluírem o número do seu Título de Eleitor na rotina denominada “Voto Eletrônico”, este deixa de ser secreto, eles, na realidade, sabem em quem você votou. E que tal imaginarmos que os programas que comandam essas máquinas maravilhosas podem efetivamente manipular o resultado de qualquer eleição? Ficaríamos lucubrando a respeito dessas teses muitas linhas.

Não acho que o voto devesse ser secreto, muito pelo contrário, sou partidário do voto personalizado. Poderia ser aproveitada essa inserção do Título do Eleitor na urna para divulgação, por exemplo, na Internet. Cada qual teria como conferir se o seu voto, de fato, estaria atribuído ao candidato em que votara. A matemática ficaria transparente. Alguns poderosos cairiam do cavalo. Talvez tivéssemos um congresso e um senado um pouco melhorados.

O que temos? Democracia? Não, “democratura”. Cá entre nós, caso obrigatório fosse, como é o voto, você preferia comer uma vitrola ou um walkman? Vai ver no Chile, na Argentina, ou na Colômbia, comem inclusive o rádio, ou o que é pior, a televisão! A passagem pelo esôfago não deve ser das mais agradáveis. Aqui somos demasiadamente calados, sei lá, vai ver ninguém come de verdade. Sinto muito, contenha-se, porque você não poderá comer o computador, nem a urna! Eles não vão deixar...

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