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A Saga do Iglu |
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05-Mar-2005 |
Em 2004 morei no Alasca, para filmar um documentário especial da Rede Lobo, voltei hoje. Congelaram minhas idéias, sem falar daquela lontra estúpida que comeu todos os meus textos. Acho que piorei da artrose, da artrite, da bursite, da labirintite, como doeu o glaucoma! De bom mesmo, restou essa demência senil. Fiquei, pois, mentecapto e decrépito, com o péssimo hábito de brigar com teclados de computadores, portas, janelas, panelas e queijo quente. Não necessariamente nesta ordem, ou isso mesmo, mas contanto que sejam objetos inanimados.
Não é mole viver um ano inteiro dentro de um iglu. Não há quiosques, não passam jogos do Fluminense... Nada de Big Brother Brasil, graças a deus! Quando eu já estava naquele fim de mundo por duas semanas, minha namorada Maria fugiu com um maldito esquimó. Tenho certeza que foi um esquimó, lá não existe entregador de pizza. Depois disso, diante de tanta solidão, eu só tive um flerte com uma enceradeira, que eu vestia de espartilho, mas não fomos felizes, parece que havia uma certa incompatibilidade.
Quando a gente está muito longe do lugar de origem, os amigos desistem. Não há com quem conversar. Os pensamentos fluem neuróticos. Eu abria uma gaveta, surgia um defeito meu. Acendia uma lâmpada, vinha outro defeito meu. Ligava o forno, lá estava mais um defeito meu. Saí correndo, fugi dos meus defeitos até o cume de um vulcão extinto. Ou rascante, ou suave, sei lá. Não deu certo fugir. Muita solidão! Tão distante, a gente não foge da solidão. Comecei a trocar idéias com pedras de gelo, que sempre concordavam com tudo que eu dizia; em seguida passei a jogar baralho comigo mesmo, buraco e de dupla, com dois mortos, valendo trincas e bater com canastra suja. E roubava! Escondia coringas debaixo da toalha...
Mas tudo isso já passou, voltei hoje, cheguei bem, estou ótimo. Muito bom estar aqui novamente, onde as coisas parecem mais simples do que lá. Ou não. Conferi a casa, muito mofo, teias de aranhas, cupins, deve também ter acontecido uma grande conferência das baratas. Depois de checar tudo, percebi que a geladeira pifou. Tive um pequeno descontrole, chutei o azulejo e quebrei o dedão. Doeu mais que o glaucoma. E agora, como é que eu vou sobreviver sem água gelada? Oh, céus, é tão mais fácil a vida em um iglu! Não se precisa inseticida, nem de geladeira...