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Publicado no Cacheiras Notícias edição 223

12-Jun-2002

Um leitor mais atento reclamou que esta coluna, da qual confessou-me ser fã, nas duas últimas edições, mais esteve parecendo um zoológico! Agradeço tanto carinho, até por essa observação perspicaz, e aproveito para esclarecer aos mortais que os dois últimos assuntos eram complementares: ambos dissertavam sobre “animais e o calvário”. Claro, calvário nosso e deles, embora essa parte seja absolutamente redundante, já que todos somos animais. Verdade que nisso tudo sobrou o silicone, que não tinha que pagar preço tão salgado. Caro, digo, claro, peço desculpas aos leitores de hoje que não viram as matérias anteriores e estão boiando mais que isopor na sopa fria da Vovó Catarina. 

Não existe amor à primeira vista. Sempre aconselho meus leitores que repassem os textos que escrevo pelo menos 98 vezes. Os detalhes ficam despercebidos nas primeiras 97 leituras! Acredito piamente que talvez alguém consiga sobreviver.

Quando consigo escrever alguma coisa que julgo engraçada, procuro leitores asmáticos. Caso tenham crises, o texto está aprovado. Métodos! Quanto mais evidentes as crises, mais satisfeito fico. Caso não tenham crises, reviso o texto 98 vezes. De um tempo para cá notei que meus amigos asmáticos fogem de mim. Um deles contratou um segurança gentil, que me obrigou a comer o papel, como se não houvesse uma cópia do arquivo no computador, mas explicou que foi só por precaução. Acho que poderia ao menos ter-me permitido mastigar, mas reconheço que teria sido pior se tivesse me obrigado a comer o disquete ou o computador...

Depois de revisar o texto 98 vezes, mostro o resultado a adolescentes, que vivem rindo de qualquer coisa. Quando não acham graça, eu tento suicídio. Mas é só de mentirinha, frescura de escritor.

Há dias em que o assunto não sai, ou não entra. Esse negócio de “sai” ou “entra” é uma questão de posicionamento ou ponto de vista, ou de prazer de cada um. Quando isso acontece (fique claro que falo da falta de assunto), eu escrevo bobagens como estas, que não reviso 98 vezes, porque não haveria lixeira que agüentasse.

Às vezes a gente apela para a política e roga que nunca se esqueçam das eleições de 98, digo, de 89 (foi só uma pequena inversão de valores, muito comum na política), com ou sem “cavalo de pau” na França, ou também não se esqueçam da copa de 98 e que Zidane. As duas coisas são previstas neste 2002, uma delas já acontecendo, e devem ser repensadas 98 vezes.

Provável que seja melhor ter 98 leitores que leiam minhas colunas uma única vez, a ter um leitor neurótico que as leia 98 vezes.

Todo escritor é mentiroso. Leia isto 98 vezes!

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